terça-feira, 26 de abril de 2011

QUESTÃO - 4

AFA
ACADEMIa FRANCISCO DE Assis
questão
abril  – 2011 – 4ª edição

Um dia, numa conversa com suas colegas religiosas, cuidadoras de pobres e doentes, crianças e miseráveis de corpo e de alma, alguém perguntou a Madre Teresa de Calcutá:
- Qual é a coisa mais fácil de os homens fazerem?
- Errar.
- Qual é o maior obstáculo na vida dos homens?
- O medo.
- Qual o maior erro que os homens podem cometer?
- O abandono.
- Qual é a raiz de todos os males, cometidos pelos homens?
- O egoísmo.
- Qual é a melhor distração dos homens?
- O trabalho.
- Qual é a maior derrota dos homens?
- O desânimo.
- Quem são os melhores professores dos homens?
- As crianças.
- Qual é a primeira e maior necessidade dos homens?
- A comunicação.
- O que mais faz felizes os homens?
- Ser útil aos outros.
- Qual é o maior defeito dos homens?
- O mau humor.
- Qual é a pessoa dentre os homens é a mais perigosa?
- A mentirosa.
- Qual é o pior de todos os sentimentos dos homens?
- O rancor.
- Qual é o presente mais belo que um homem pode dar ao outro?
- O perdão.
- O que é mais imprescindível a todos os homens?
- O lar.
- Qual o caminho mais rápido para os homens serem felizes?
- O caminho certo: o caminho do Bem.
- Qual é a sensação mais agradável que os homens podem sentir?
- A paz interior.
- Qual é a maior proteção que um homem pode dar a outro homem?
- O sorriso.
- Qual é o remédio mais necessário aos homens?
- O otimismo.
- Qual é a maior satisfação dos homens?
- O dever cumprido.
- Qual é a força mais potente do mundo disponível aos homens:
- A fé.
- Quais são as pessoas mais necessárias aos homens?
- Os pais.
- Qual é a coisa mais bela de todas as coisas e de todos os seres?
- O amor.
Esse texto foi transcrito da página de Frei Prudente Neri, frade da Ordem Franciscana, Capuchinho. Frei Prudente, estudioso, inteligente, santo, tinha sido meu colega de seminário em Ouro Fino. Faleceu, em Uberlândia, como um passarinho: dormiu e não acordou mais. Você poderá encontrar alguns textos dele no site: WWW.procamig.org.br O nosso AFA continua aberto a todos os professores e o meu endereço eletrônico continua o mesmo.
Professor Décio Bragança Silva


Questão   vernácula


A formação de palavras é um estudo verdadeiramente fascinante. Na realidade, não há nenhum idioma puro. As pessoas vão criando palavras dependendo de sua necessidade, sem muita explicação. “A necessidade faz o sapo pular” – diziam os antigos. Conhecendo radicais gregos, latinos, celtas, ingleses, japoneses ou de qualquer língua, misturamos radicais e formamos novas palavras.
Com o avanço das ciências, novas palavras têm de ser criadas. Uma ferramenta nova, um produto novo, como as pessoas quando nascem são registradas e/ou batizadas, novos nomes vão sendo registrados e dicionarizados, sem nenhum critério, praticamente.
Hoje, vamos “brincar” com o radical: ALGIA – com o auxílio do Dicionário Aurélio. Vamos citar as palavras referentes somente ao ser humano, especialmente vocábulos ligados à medicina.
Sabendo o sentido de ALGIA, você poderá criar outras palavras, Vamos, então, dar o sentido de ALGIA = Qualquer dor.
Agora, algumas palavras:
·  adenalgia = dor em glândula; adenodinia;
·  aerodontalgia = odontalgia em pessoa que está em local de baixa pressão atmosférica, como durante viagem aérea ou prática de alpinismo; odontodinia, barodontalgia;
·  analgia = analgesia, ausência de dor;
·  angialgia = dor no trajeto de um vaso;
·  antaalgia = estado de combate à dor;
·  aortalgia = dor produzida por lesão aórtica;
·  artralgia = dor em articulação; artrodinia;
·  barontalgia = aerodontalgia;
·  braquialgia = dor em braço;
·  bubonalgia = dor na virilha;
·  cardialgia = dor aguda no coração, cardiodinia; dor muito forte no epigástrio, na cárdia;
·  causalgia = dor que se apresenta freqüentemente sob forma de queimação, muitas vezes acompanhada de alterações tróficas cutâneas, e conseqüente à lesão de nervo periférico;
·  cefalalgia = cefaléia; dor de cabeça;
·  cervicalgia = qualquer dor situada no pescoço; cervicodinia;
·  cinesalgia = dor em músculo, quando posto em ação;
·  cistalgia = dor na bexiga;
·  condralgia = dor em cartilagem
·  costalgia = dor em costela;
·  coxalgia = dor em articulação coxofemoral., dor em coxa;
·  dacriadenalgia = dor em glândula lacrimal;
·  didimalgia = orquialgia, dor nos testículos; orquialgia, didimodinia.
·  dorsalgia = dor no dorso;
·  encefalalgia = cefaléia, dor de cabeça;
·  encelialgia = dor em víscera abdominal;
·  enteralgia = dor intestinal;
·  epigastralgia = dor no epigástrio;
·  esplenalgia = dor esplênica, dor no baço;
·  esternalgia = algia na região do esterno. É uma dor provocada por pressão digital sobre o esterno, outrora considerada sintomática da sífilis;
·  gasteralgia = gastralgia;
·  gastralgia = dor no estômago; gasteralgia, gastrodinia;
·  glossalgia = dor na língua;
·  gnatalgia = dor no queixo;
·  gonalgia = gonialgia;
·  gonialgia = dor em joelho; gonalgia;
·  hemialgia = dor que surge apenas em uma das metades do corpo;
·  hepatalgia = dor no fígado;
·  hieralgia = dor no sacro;
·  hipalgia = hipalgesia, diminuição da sensibilidade à dor;
·  hiperalgia = hiperalgesia, exagero da sensibilidade à dor;
·  hipnalgia = dor que se manifesta durante o sono;
·  hipoalgia = hipalgia, exagero da sensibilidade à dor;
·  histeralgia = dor no útero;
·  isquialgia = = isquiagra, dor fixa em quadril ou nos quadris;
·  laringalgia = dor laríngea, na laringe;
·  lombalgia = dor lombar, nas costas;
·  lombociatalgia = dor que se manifesta em região lombar e em distribuição de nervo ciático;
·  mastalgia = mastodinia, dor em mama;
·  melalgia = dor em membro superior ou inferior;
·  meralgia = dor em coxa;
·  metralgia = dor no útero; uteralgia, metrodinia;
·  mialgia = dor nos músculos; miodinia;
·  mielalgia = dor na medula espinhal;
·  nefralgia = dor em rim;
·  neuralgia = dor paroxística, que se estende ao longo do trajeto de um ou mais nervos; nevralgia;
·  nevralgia = dor paroxística, que se estende ao longo do trajeto de um ou mais nervos; neuralgia;
·  nictalgia = dor que só se manifesta durante a noite;
·  nostalgia = melancolia produzida no exilado pelas saudades da pátria;
·  notalgia = dor no dorso;
·  oarialgia = ooforalgia,
·  odontalgia = dor de dentes; odontagra;
·  oftalgia = oftalmalgia;
·  oftalmalgia = dor ocular;
·  omalgia = dor em ombro;
·  ooforalgia = dor em ovário; oarialgia;
·  orquialgia = dor nos testículos; didimalgia, didimodinia;
·  ostealgia = dor em osso; osteodinia;
·  otalgia = dor em ouvidos; otodinia;.
·  pancrealgia = pancreatalgia, dor no pâncreas;
·  pancreatalgia = dor no pâncreas; pancrealgia;
·  pigalgia = dor em nádega;
·  pneumonalgia = dor em pulmão;
·  proctalgia = dor no reto;
·  prosopalgia = dor na face;
·  prostatalgia = dor na próstata;
·  psicalgia = dor moral; amargura ingênita, dor cuja causa é considerada apenas psíquica, não se encontrando outra origem;
·  psiquialgia = Dor moral; amargura ingênita, dor cuja causa é considerada apenas psíquica, não se encontrando outra origem, psicalgia;
·  psicroalgia = sensação dolorosa de frio;
·  quiralgia = dor em mão;
·  raquialgia = dor em qualquer ponto da coluna vertebral;
·  retalgia = dor no reto;
·  reumatalgia = dor de natureza reumática;
·  rinalgia = dor no nariz;
·  sacralgia = dor no sacro;
·  talalgia = dor em calcanhar;
·  tarsalgia = dor em tarso;
·  telalgia = dor referida;
·  telalgia = dor em mamilo;
·  tenalgia = dor em tendão;
·  ureteralgia = dor em ureter;
·  uretralgia = dor na uretra;
·  uteralgia = metralgia, dor no útero.


Questão   memorialista


Sem dúvida, um dos grandes médicos da cidade de Uberaba, Professor Lineu Miziara, teve morte precoce. Médico, boêmio, tangueiro, bolereiro, poeta, pesquisador, articulista, musicólogo, radialista, apresentador de televisão, nunca estava só, sempre rodeado de muitos amigos e estudantes.
Acreditava ser o amor a prova mais contundente da existência de Deus.  Gostava de contava a história de Romeu e Julieta, na versão árabe: Laila e Majnun. Como Romeu, Majnum fazia sua declarações de amor na sacada da casa de Laila. Numa noite, os raios da lua – palavra masculina em árabe – entravam pelo quarto de Laila e iluminavam o corpo de Laila – motivo suficiente para despertar nele muito ciúme, muito doido, muito louco. (A palavra Majnun, hoje, em árabe, significa loucura, doidice, doidura, ciúme...)
O final de uma história de amor é sempre a morte – eternização do amor. Sem a morte, o amor não seria assim um sentimento tão forte.
Para o Professor Lineu, o amor verdadeiro tem de ser platônico – o amor das ideias não-acabadas, da não-consecução, do ideal que caminha em direção à perfeição, da sombra na parede da caverna, segundo Platão. Daí, derivam todos os amores: o amor pela beleza, o amor pelas coisas naturais, o amor transcendental – necessidade do homem para não se sentir só no mundo.
O amor nunca é verbalizado e se for passa a ser uma necessidade. O amor é maior e vem antes da necessidade. “A gente precisa de alguém, porque ama alguém: Eu preciso de você, porque te amo!”
Nunca se conformava com as guerras, sempre produzidas por interesse econômico – “o lucro é uma força irresistível!” As brigas e as disputas religiosas, no Oriente Médio e em especial no Líbano, são desculpas que ocultam interesses capitalistas.
A história da humanidade está repleta de dominadores – que viram heróis - e dominados – que viram terroristas. “Respeitar a liberdade do outro faz parte de minha liberdade!”
Sobre a medicina sempre dizia que sua esperança era que a medicina um dia deixasse de ser curativa. Medicina curativa trabalha com a morte; medicina preventiva trabalha com a vida e médico tem de ser preocupar com a vida. “Que a medicina não seja mais necessária, porque a saúde do homem será plena pela prevenção das doenças. A medicina é uma das poucas atividades humanas que caminha para a sua auto-destruição”.
Vivemos muitos revezes e experiências, num mundo dantesco-infernal, mas chegará um dia, pelo amor, em que todos os homens se sentirão irmãos, na dependência uns dos outros, atingindo o ideal – essa era a sua grande utopia, uma utopia alcançável, segundo ele.
Todo uberabense tem um caso relacionado com a vida do professor Lineu. No final da vida, comprou um bonito e caro carro. estacionou o carro, ali na Rua Getúlio Guaritá, perto do Hospital-Escola, onde ficam muitas barraquinhas vendendo salgadinhos, picolés, churrasquinhos de gato, de cachorros e de todos os animais.
Foi trabalhar. Depois de quatro horas volta e vê um picolezeiro assentado no capô de seu carro. Não teve dúvida, aproximou-se e assentou no carrinho do picolezeiro, que gritou:
- Doutor, este carrinho é muito frágil. O senhor vai quebrar o meu carrinho. Eu vivo dele. Eu sustento a minha família com este carrinho.
O Professor Lineu, levantando-se, praticamente disse a mesma coisa:
- Meu senhor, este carro é muito frágil. O senhor vai amassar o capô do meu carro. Eu vivo dele. Eu sustento a minha família com este carro.
Aquele simples senhor entendeu o recado, pediu desculpas e o professor Lineu lhe comprou ainda um picolé e combinou com o picolezeiro que, enquanto estivesse trabalhando, ele olhasse e vigiasse seu carro pelo preço de cinco picolés diários.
Muitas histórias envolvendo o Professor Lineu devem ainda ser contadas. É urgente que algum historiador escreva a “História da Educação em Uberaba”. A bênção, Professor Doutor Lineu Miziara!


Questão   política


O senador e professor Cristovam Buarque, talvez, tenha sido o mais lúcido de todos os ministros de Educação da História Brasileira. Reitor de uma das mais importantes universidades do Brasil, a UNB - Universidade de Brasília, que foi criada pelo não menos importante genial Darcy Ribeiro.
Um dos fundadores do PT – Partido dos Trabalhadores – hoje é Senador da República pelo PDT – Partido Democrático Trabalhista, antigo PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – o de Getúlio Vargas, de João Goulart e do nosso Professor Mário Palmério.
Quando ministro do governo do Lula quis dar continuidade ao que Paulo Renato tinha iniciado, virando o leme um pouco para a esquerda, segundo sua própria avaliação.
A idéia do Provão – hoje ENADE – foi mantida, porque era na época a única forma de avaliação da capacidade institucional e da responsabilidade da universidade com o país e com o mundo.
Acredito que o problema que enfrentou e que depois foi demitido por isso, tenha sido o lobby, a pressão das “indústrias” de educação, como é o caso dos grandes conglomerados de pré-vestibular – fábrica de loucos e de lucros exorbitantes!
Lembro-me de uma entrevista que deu às televisões, quando dizia que os exames vestibulares – porta de entrada das universidades – deveriam ter apenas duas provas: de Português e de Matemática.
O caldo entornou! Os cursinhos foram à loucura, porque essa medida desmontaria as suas estruturas faraônicas, com salas enormes de até 700 alunos e os professores dando show num tablado como num teatro. Questionado por que Português e Matemática, respondeu na maior serenidade – uma de suas virtudes:
- Uma prova de Português para se avaliar a capacidade de ler e escrever, ouvir e falar dos nossos estudantes. Uma prova de Matemática para se avaliar a capacidade de somar e multiplicar, dividir e subtrair dos nossos estudantes. Essas oito habilidades são suficientes para que qualquer um de nós possa aprender as outras funções, missões e profissões.
Claro, não consegui reproduzir na íntegra sua fala, porque foi muito mais incisiva e contundente, mas a idéia, mais ou menos, foi essa.
Bastou isso para aumentar a pressão sobre o ministro. A imprensa, principalmente a paulista, fazia pressão para ser colocado no ministério um tal de Di Gênio, que já havia sido “indicado” por essa mesma imprensa para o governo FHC – oito anos antes.
O próximo presidente eleito sofrerá a mesma pressão e será indicado esse nome ou outros que entendem a educação como mercadoria e os professores como vendedores de diploma.
Muitas reuniões dos “donos” de escolas, de todos os níveis e desníveis, para tirar o ministro.
Numa dessas reuniões foi noticiado que o ministro Cristovam estava presente e propôs uma ampliação das provas dos vestibulares:
- Tá bom! Além de Português e Matemática, vamos fazer provas de Geografia, História e Ética.
- Tá louco!
- Assim é demais!
- Quanta alucinação!
- Mas, ministro, por que Geografia, História e Ética?
Com a mesma serenidade e lucidez, responde:
- História para a gente saber de onde veio, Geografia para a gente saber onde está e Ética para a gente saber para onde vai.
Pronto! Por telefone, o presidente Lula demitiu o mais importante ministro de Educação que o Brasil já teve: Cristovam Buarque.
Aproveito o espaço para mostrar os seus projetos para educação do Brasil, na época: ampliar o Fundef; aumentar o valor per capita; valorizar o professor, aumentando em até 30% de seu salário, dependendo de seu desempenho; analfabetismo zero – alfabetizar a todos os brasileiros num prazo de 4 anos...
Alfabetização é um direito, não é instrumento para produção de mão de obra de um mercado excludente. No fundo, Cristovam Buarque queria mexer em tudo: na concepção de educação e alfabetização, na forma de ingresso nas universidades, na estrutura física das escolas, na duração dos cursos...
Infelizmente, educação não é prioridade de nenhum governo: municipal, estadual, federal, que têm muitas preocupações apenas com a economia.          Precisamos de alguns Cristovans Buarques!

    




Questão   docente


Uma cidade, um estado e um país não são seus prédios e pontes, suas praças e recantos, suas avenidas e ruas, suas belezas e florestas. Uma cidade é a sua gente. A sua gente é formada, é educada, é instruída, é formada por professores.  Mesmo que o amor de um professor não seja declarado, há um amor secreto, latente, oculto em cada professor, como uma semente que esconde uma árvore frondosa futura.
Em outras palavras, a humanidade inteira cabe num professor, cabe numa sala de aula – espaço de crescimento, de diálogo, de encontro, de encontro marcado, de encontro de amantes. Os que vão se encontrar sabem por que, para que, quando, onde, como será o encontro.
Queiramos ou não, um professor é um “construtor” de seres humanos. Não há nenhum benfeitor da humanidade que não tenha passado pelos bancos escolares, que não tenha tido um professor. Também é verdadeiro que muitos que passaram pelos bancos escolares, que tenham tido um professor, não sejam assim tão benfeitores, como era desejo de seus professores.
Em outras palavras, os cientistas e os artistas, os benfeitores e os santos, os bandidos e os estupradores, os corruptos e os fraudadores, passaram por bancos escolares, tiveram um professor. O Bem e o Mal, os anjos e os demônios moram numa sala de aula, escondidos nos armários e nas carteiras, debaixo da mesa, atrás da porta.
Ser professor significa a experiência de um momento infinito, de uma superação indefinida dele mesmo, inclusive. Talvez, por isso João Guimarães Rosa, nosso maior romancista mineiro, tenha dito: “Professor é aquele que de repente aprende!”
Todas as vezes que falo sobre professor me vem à mente a história do “Apólogo” de Machado de Assis. O professor é, sim, a agulha que abre caminhos, desnuda os horizontes, enfeita a vida, produz a civilização. O aluno é, sim, a linha que se apresenta nos bailes e laboratórios, nos escritórios e tribunais, nos igrejas e bolsas de valores, nos ruas e becos desta vida.
A agulha, na solidão da sala de costura, se orgulha da beleza produzida, mas se preocupa com a feiúra do desdém e desprezo, desespero e corrupção de suas “linhas”.
Não gosto da moral, do final do Apólogo de Machado: “Eu também já fui agulha de muita linha ordinária!” Preferia o final sem tanto amargor, sem tanta sensação de trabalho e serviço inúteis. Há uma cumplicidade entre professores e alunos – o que não me dá direito de “sofrer tanto.”
Todos nós temos um professor querido, felizmente. A história dos homens poderá ser contada pelas histórias dos professores. O que estou fazendo é uma provocação aos historiadores e aos jornalistas: contar a história dos homens, da humanidade, contando a vida e obra de professores.
Aqui, no Brasil, foi construída, por causa dos jesuítas no início e depois dos dominicanos, franciscanos e tantos outros religiosos e religiosas, a imagem de professor envolvida numa auréola de serviço, doação, santidade, médico da alma – o que, hoje, não é nem pode ser verdadeiro. Um professor é um profissional do ensino, um trabalhador da educação.
 Se a imagem de sacerdócio não satisfaz, nem é real, verdadeiro, concreta, porque todo professor é um profissional como outro qualquer que se prepara para tal. A imagem de um semeador, que vai lançando várias sementes em vários tipos de terreno, alegra mais, é mais verdadeira, real e concreta.
A semente germinará, brotará, crescerá, dará frutos e novas sementes, dependendo do terreno onde é lançada. O semeador, sem muitas vezes conhecer o terreno, lança suas sementes. Há terrenos áridos, argilosos, secos, úmidos, férteis, ou cheios de pedras, de espinhos, de húmus. O preparo do terreno para a semeadura não depende só dos professores. Se as coisas não vão bem, a culpa não é só do professor e da escola, como muitos insistem, principalmente os meios de comunicação de massa, em afirmar.
Seria frustrante e desesperador se nenhuma semente germinasse, brotasse, crescesse, desse frutos em abundância. Felizmente, muitas ainda germinam, brotam, crescem, dão frutos em abundância – mérito de todos, inclusive dos professores!
Eu já estou no final de linha, com mais de quarenta anos em sala de aula. Vivi experiências maravilhosas e não tão maravilhosas, mas posso dizer como o missivista Paulo: “Combati um bom combate!” – “Semeei o que foi possível!” – “Semeei flores e alimentos, plantas danosas e venenosas!”
Porque semeador, o professor imortaliza-se, eterniza-se nas sementes. Professor não morre, porque uma semente germinada produz milhares de outras sementes. Professor não morre. Fica encantado! Fica nos seus pupilos! Fica nas boas e nas más ações de seus pupilos! Os professores se deixam nas sementes!
Hoje muito mais do que ontem, mais pessoas sabem ler – o que não significa que já estejamos alfabetizados, libertos da ignorância e da mediocridade. Vale dizer que o trabalho dos professores não tem fim.
O professor, etimologicamente é aquele que professa, que põe fé no que diz, que acredita na força da fé, que acredita na sabedoria e no já conhecido e no desconhecido, mas acredita principalmente nos homens. Seu instrumental são as noções e conceitos, ideias e propostas, traduzidas em palavras, na comunicação e na expressão.
Acredito que as palavras escritas estejam em processo de extinção. A venda de jornais e de livros e de revistas tem caído vertiginosamente no mundo inteiro. A Era Gutenberg está chegando ao fim. O número de títulos de livros, revistas e jornais tem aumentado significativamente, mas o número de exemplares vendidos é cada vez menor.
Não acredito que o problema seja o livro, ou jornal, ou revistas eletrônicas, porque também não são acessados nos mais de um  bilhão de computadores do mundo inteiro e nos mais de 90 milhões no Brasil. Os computadores são acessados, usados muito mais como correio eletrônico (43%), como comércio eletrônico (31%) e como entretenimento (18%).
Acredito que o problema é mesmo o analfabetismo, o desinteresse pela leitura e pela escrita. A linguagem eletrônica, entre os comunicantes, é sintetizada, cifrada, abreviada. O nosso planeta realmente é muito esquisito e inexplicável: há no mundo dois bilhões de pessoas que vivem sem dominar a arte da leitura e da escrita; no Brasil, são vinte milhões.
Um analfabeto tem estreitos os horizontes e as ilusões, as necessidades e os sonhos, os ideais e a vida, as teimosias e as esquisitices. Tudo nele é estreito. Isso é um bem ou um mal?
A transmissão oral, a tradição da oralidade, é que produziu a necessidade da escrita, da mesma maneira que acontece com todos nós: primeiro falamos e depois escrevemos, quando ainda éramos crianças, bebês. As histórias orais são anteriores à escrita, claro.
Com o Iluminismo, a habilidade de escrita e leitura passou a ser parte essencial da existência digna dos homens, dos cidadãos. Com a democratização da leitura e da escrita, via “explosão” das escolas, criou-se um novo problema: o aumento da insatisfação, do descontentamento, da angústia e do desespero das pessoas, porque se lhes alargaram os horizontes e, por extensão, suas necessidades.
Assim, a leitura e escrita passam a ser um perigo para os governos do mundo inteiro que preferem o analfabetismo. “Saber é poder!” Os povos aprenderam a ler e a escrever não por vontade própria, mas porque se viram obrigados a isso – o que não significa que gostem de ler e escrever.
O ato de aprender e saber ler e escrever passaram a ser controlados pelos Estados. Não por acaso, do iluminismo nasce o capitalismo. E daí, a era indústria! Foi preciso fazer um treinamento, um adestramento de uma mão de obra barata para essa nascente indústria, via escolas.
Encontrar um emprego, um trabalho, passou e passa ainda pela alfabetização – o que não significa gosto, prazer, alegria de ler e de escrever. Ser alfabetizado é ser treinado, condicionado, domado, programado, maquinizado, robotizado, reificado, coisificado para a indústria capitalista.
Nunca e em nenhum país, houve um esforço de quem quer que seja para a cultura da leitura e da escrita, e muito menos de libertar as pessoas para que “falem” – “escrevam” – “expressem-se”  por si mesmas.
 Assim, o controle é absoluto, porque, sem expressão, sem liberdade e libertação, as pessoas, sem que percebam, têm controlados seus cérebros, seus ideais e suas ideias, suas utopias e sonhos, além de seus músculos e movimentos.
Criou-se assim a figura do alfabetizado secundário, ou o alfabetizado útil. Um alfabetizado secundário ou útil não gosta de ler, de escrever, de falar, de ouvir, de expressar-se, de expor-se, porque isso poderá trazer-lhe alguns problemas de ordem social, política, econômica...
Nesse ponto de vista, só o analfabeto, então, é livre, porque não tem consciência nem do que está acontecendo com ele, nem com” as coisas” do mundo.Ninguém o vê como problema, ou como perigo. Problema e perigo para os homens do poder são os alfabetizados.
Somos alfabetizados secundários, porque não temos a ideia do que seja isso ou aquilo. Ficamos e estamos felizes e conformados com a situação. Todo alfabetizado secundário se sente bem informado, porque consegue decifrar ordens e instruções, preencher um cheque, digitar uma senha bancária, ler manchetes de jornais, garantindo-lhe uma sobrevivência sem muitos problemas, sem muitas angústias e frustrações. Criamos até, por exemplo, frases como esta: “É preferível pingar a secar!” em relação, por exemplo, a salários.
Um alfabeto secundário é produto da industrialização. Numa economia neoliberal não é importante a produção, mas o mercado. Dependendo, então, das variações e “nervosismo” do mercado, as escolas preparam um contingente disciplinado de reserva de mão-de-obra e preparam também um “exército” de consumidores qualificados, mais exigentes e mais descartáveis.
Para que assim pensássemos, cria-se a “indústria cultural” – “a cultura de massa” – “a televisão”, principalmente – visando à ideologia única. Vale lembrar, aqui, uma citação do sociólogo norte-americano Neil Postman: “Quando uma população deixa que sua atenção seja desviada por trivialidades, quando a vida cultural redefinida como uma série interminável de entretenimentos, quando a discussão política se torna uma forma de comunicação infantil, quando, resumindo, um povo se transforma em espectador e seus assuntos públicos se transformam em números de variedades, uma nação se encontra em perigo – a morte da cultura torna-se uma possibilidade.”
Vivemos a era da imagem! A televisão é sucesso no muno inteiro por causa de sua imbecilidade e mediocridade. Quando um governo precisa “cortar gastos” sua primeira atitude é tirar os investimentos da cultura, de bibliotecas e da educação.
É possível sim encontrar pessoas com oito, dez anos de escolaridade, não saber ler e escrever por si mesmas. Saber obedecer, cumprir ordens, preencher cheque, digitar uma senha... basta! Não é tarefa difícil encontrar pessoas cultas, conscientes, sérias sem emprego formal. A cultura, a conscientização e a seriedade não garantem mais nada, muito menos um bom emprego.
Nesse clima e ambiente, a leitura passa a ser um ato voluntarioso, isto é, um esforço danado de alguns poucos.
Em Uberaba, com 300 mil habitantes, não há 300 leitores. O nosso consolo é que não somos diferentes de ninguém, porque assim também acontece em Minas Gerais, no Brasil e no mundo. A UNESCO está preocupada com esse quadro, mas os governos não estão.
Escrever, para mim, é ainda uma obstinação e teimosia!

Questão   histórica


     Vivemos bombardeados constantemente e de todos os lados por informações de todas as cores e matizes. Distinguir as que são verdadeiras ou falsas não é tarefa fácil. Além disso, sabemos que há um certo controle ideológico dessas informações. muitas vezes, não conseguimos perceber o jogo maquiavélico de interesses e intenções.
     E a vida vai passando sem que resolvamos os nossos problemas, por exemplo de diferenças de gênero, raciais, culturais... Tolerância, respeito pelas diferenças são palavras fora de moda. A verdade é que não aceitamos o outro como possibilidade de crescimento pessoal e coletivo. Em relação ao sexo, então, é que a intolerância aumenta ainda mais.
     A prostituição feminina de uma certa maneira foi e é incentivada até hoje. O adultério, até uns dias atrás, era crime e o adúltero respondia a processo. Pessoas “amigadas”, separadas, divorciadas eram discriminadas no emprego, nas ruas, nas igrejas. A homossexualidade não é tolerada ainda por muitas pessoas. Já ouvi pais dizerem em relação a um filho homossexual: “Prefiro que ele esteja morto a ser bicha!” em relação a uma filha homossexual: “Prefiro que ela seja prostituta a ser sapatão!”
     O sexo foi e é misturado, não por acaso, com as noções de pecado, de inferno, de capeta, de demônio  existem igrejas evangélicas que têm como proposta a cura da homossexualidade. Ao contrário, há outras que acolhem a todos os homossexuais, nossos irmãos e filhos de Deus.
     O assunto “sexo” é vasto e a discussão é sempre muito ferrenha, porque não é racional. Normalmente, discute-se o assunto com muita paixão e não se chega a boas reflexões e conclusões, porque tudo passa por generalizações.
     Avancemos passo a passo, bem devagar, porque também não podemos correr o risco de generalizar, nem sermos mal interpretados. Argumentam alguns que, no relato bíblico, no Gênesis, está escrito somente as palavras macho e fêmea, boi e vaca, cachorro e cadela, homem e mulher, etc. Qualquer e toda referência era feita em relação a um casal. Noé, obedecendo a Deus, levou para sua arca, apenas um casal de animais de todas as espécies. A intenção, claro, era repovoar a terra.
     Na história humana do sexo, hoje estudada e pesquisada por psicólogos e historiadores, por religiosos e ateus, por médicos e muitos curiosos, o sexo é entendido em quatro etapas, em quatro momentos.
     No primeiro momento, entre 4 milhões e 500 mil e 4 mil anos atrás, mulheres e mulheres praticavam sexo sem nenhum receio, ou trauma, ou problema, já que, para eles, era o mais puro dos prazeres, como os animais. Não sabiam que o macho tinha participação na procriação.
     A mulher, como toda fêmea, paria as suas crias naturalmente, porque se acreditava na geração espontânea. A sociedade era matriarcal e a mulher quase adorada, porque era ela quem trazia a vida à terra. O homem era obrigado a não deixar a cria da mulher morrer. Por isso, desenvolveu o arco, a flecha, o anzol, o arpão, a lança e outros instrumentos necessários para a produção de carne – alimento importante de proteínas.
     Praticavam o sexo por trás, como os animais. Dizem os cientistas que o corpo da mulher e o do homem, anatomicamente, eram diferentes, adaptados à posição sexual. Milhões de anos, o sexo foi prazer, só prazer.
     Quem escolhia o parceiro para o prazer era sempre a mulher, a fêmea. Os machos, inclusive os homens, tinham que se exibir, mostrar às mulheres seus dotes, sua força, sua saúde, sua beleza, sua inteligência para que um deles, naquele momento e lugar, fosse o escolhido.
      Abrindo parênteses: se até, hoje, fosse a mulher a escolher seu parceiro, a humanidade, com certeza, estaria em outro estádio, mais feliz e mais inteligente, mais bela e mais saudável. Toda fêmea é seletiva! O problema é que muitos de nós, homens, nunca seria o escolhido, por causa de nossa estupidez, nossa ignorância, nossa feiúra, nossa falta de saúde... Fechemos parênteses!
     A instituição casamento, as noções de fidelidade tanto masculina quanto feminina, as ideias de pecado e crime... não eram levados em conta, mesmo porque as pessoas não se fixavam num mesmo lugar, buscando sempre um lugar melhor para se viver. O importante era povoar a terra – função da mulher.
     Fala-se até que muitos partos eram sem dor, já que a dor do parto é um castigo imposto pelo Deus da Bíblia, escrita, começada a ser escrita por Moisés, no ano, mais ou menos, 3 mil antes de Cristo, no Império Egípcio, quando a mulher já estava subjugada ao homem. A dor do parto é uma questão fisiológica. Não é possível que Deus, castigando a mulher-Eva, tenha castigado todas as fêmeas de todas as espécies. Ainda mais: se a dor fosse assim tão insuportável, fêmea nenhuma, inclusive a mulher, não teriam uma segunda cria. A menos que as fêmeas sejam tão masoquistas!
     Aos poucos, bem devagar, descobre-se o fogo, inventa-se a roda, começam-se a usar os metais, desenvolve-se a linguagem oral e escrita – a arte rupestre, organiza-se o poder político, social, religioso, econômico, e nascem as primeiras civilizações. Com as primeiras civilizações, a escravidão e as classes sociais, a monarquia e a escrita cuneiforme e pictográfica para registrar as, principalmente, ordens dos monarcas, as religiões e os deuses e deusas, as leis e a obediência, o casamento e a prostituição, os pecados e os crimes, a ciência e as tecnologias. Estava criada a organização e a ordem.
     Nasce, então, o segundo momento da história do sexo entre os seres humanos. Sumérios, acadianos, amoritas, elamitas, fenícios, egípcios... praticam, agora, o sexo com a finalidade de procriar, porque fica conhecida a participação do macho, do homem, na produção da vida. Aí, o controle passa a ser total e absoluto do homem.
     Primeira medida, a troca de posição na transa: mulher fica debaixo do homem para demonstrar a sua submissão, resignação, obediência, impossibilitando-a de rejeitar o parceiro, negar prazer ao homem, fugir. Quantos estupros e quantos desaforos! Ao homem quaisquer e todas as mulheres. Ele vira semeador de espermatozóides, porque o controle é dele. A palavra sêmen, etimologicamente, significa semente. Está decretada a verticalização até nas relações amorosas. Claro, o homem com tantas obrigações sexuais, porque semeador, proíbe o prazer, o gozo, o orgasmo às suas mulheres e, para não ser “traído”, apela para as ameaças, para a força física, além do direito de o homem matar, apedrejar. Muitos matam a suas esposas, ex-esposas, companheiras, amantes, até hoje, como se fosse direito deles. Advogados defendem esses criminosos como sendo uma legítima defesa da honra. Foi preciso criar a “Lei Maria da Penha” para que as mulheres não fossem tão agredidas e violentadas no corpo e na alma.
     Há alguns números assustadores: a cada quinze segundos uma mulher sofre agressões físicas e psicológicas de seus companheiros. Alguns acreditam que esse número ainda deva ser maior, porque, em geral, as mulheres não formulam queixas contra esses criminosos. Notícias de estupro, cativeiro de mulheres imposto por namorados, atentado ao pudor, pedofilias, sempre tendo o réu o homem, todos os dias, enchem páginas e mais páginas de jornais e revistas, telas de televisão.
     Possivelmente, a maioria dos homens ainda está vivendo esse segundo momento da história. Os homens insistem em não avançar, não evoluir, não respeitar os direitos das mulheres. Se dermos uma passada de olhos pelas organizações e corporações, vamos perceber que a maioria dos altos cargos, por conseguinte dos altos salários, é exercido por homens. Situação semelhante na política, no poder executivo, legislativo e judiciário, nas religiões, nos hospitais... Quando uma mulher exerce determinados cargos e funções, o fato vira notícia. Parece-me que os homens não confiam nas mulheres que comandam.
     Houve um tempo em que as mulheres eram prometidas aos homens, quando nasciam, ainda bem crianças. Na realidade, elas saíam do poder e submissão do pai e caíam no poder do marido, sempre com o dever de obedecer. Pesquisas têm mostrado que há muitos casamentos ainda arranjados, levando-se em conta principalmente os aspectos econômicos.
     Poucos países, por exemplo, remuneram o trabalho das mulheres no lar, dando-lhes inclusive aposentadoria. A nova constituição da Venezuela, de 1999, serve de exemplo a todos os países do mundo. E ainda dizemos ser um “Diabo em Forma de Gente” um tal de Hugo Chavez. Na realidade, quem cuida de crianças – preferencialmente deveria ser os pais, ou o pai, ou a mãe – tem de receber pelo que faz. E o que faz não é pouco.
     Há nesse ato um aspecto econômico, sim. É um investimento muito barato em relação ao que pode acontecer no futuro: crianças soltas nas ruas, formando pequenos bandos, praticando pequenos delitos, sendo usadas como mulas do tráfico e tantas outras coisas mais. Cuidar da semente é de fundamental importância para um país. É uma espécie de Bolsa-Família, bem mais aperfeiçoada e equilibrada.
     Sob o aspecto social há ainda um aumento de oferta de empregos, já que um pai, ou uma mãe, ou os dois necessariamente não devam sair de casa em busca de emprego. Vale dizer que isso também faz parte de lutas e de conquistas das mulheres. As mulheres de lá já conquistaram o direito de aborto até na 12ª semana de gravidez. Não sei se isso é bom ou mau, mas é um assunto importante para as próximas edições do AFA. A lei pune a mulher e a quem lhe ajudou a fazer o aborto, mas não pune o homem que lhe fez o filho.
     O terceiro momento da história do sexo se inicia com a tese, a partir de análises principalmente feitas por Sigmund Freud, de que sexo tem duas finalidades: procriação e prazer, uma opção de prazer. Essa tese foi e continua sendo absurda para algumas religiões. Daí, a proibição da camisinha e de todas as formas anticonceptivas. Independentemente se isso é permitido ou proibido, a partir desse momento, as mulheres conquistaram muitos espaços na sociedade. Não se questiona, aqui, o aspecto sacramental, ou religioso do casamento.
     No final do século XIX, os cartórios de registros de casamento, de nascimento se organizaram, também não por serem bonzinhos, mas porque era uma forma de controle e de fonte de renda dos governos. De qualquer forma, houve avanços significativos. Até que as mulheres, aqui, na década de 30, conquistam o direito de votar e de serem eleitas.
     O sexo como opção de prazer – a grande novidade do século XX. Muitas mulheres até hoje não sabem o que é prazer, o que é orgasmo, o que é gozo, por ignorância de muitos homens que pensam que mulher que goza não é mulher séria, é desonesta. Até a palavra “desonestidade” tem conotações diferentes para homens e mulheres. Quando se diz que aquele homem é desonesto, ninguém pensa que ele seja adúltero, ou tenha casos com mais de uma mulher.
     As relações amorosas têm mudado bastante. Vejamos alguns números: em 2009, segundo o IBGE, 49 % dos casais têm mais de um filho; 34% dos casais têm apenas um filho; 17% dos casais – o que equivale a 2 milhões e 100 casais – não têm filho algum, apesar dos cônjuges terem renda para tal. Não precisamos de outros números para entender que a função da mulher seja só parir.
     O movimento feminista, a Revolução do Soutien, o divórcio legalizado em quase todos os países, a legalização do aborto em alguns países, concordemos ou não, é fundamental para os novos comportamentos sociais ou para a construção de novos comportamentos sociais. Leia “A função do Orgasmo” e outros livros de Simone de Beauvoir! 
     A nossa Constituição de 1988 formalizou, reformulou o conceito de família, de união estável, relação duradoura, pública e contínua. Falta-nos ainda o reconhecimento de união estável de casais homossexuais, já reconhecidos nos nossos vizinhos Argentina, Uruguai e Equador. Juízes interpretam o casamento como inconstitucional, mas outros fazem um contrato civil, como se fosse uma empresa. Já houve em alguns Estados brasileiros autorização de casamentos homossexuais. A nossa Presidenta, Dilma Rousseff e a filha de Fidel Castro, vejam, Mariela Castro, a título de exemplificação, são defensoras dessa tese.    
     As igrejas, principalmente a Católica, preparam argumentos fortes contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Alguns argumentam que a homossexualidade vai contra a natureza. O interessante é que há animais homossexuais – que o diga o veterinário e professor Cláudio Iudi. Outros usam argumentos de moralidade, alegando ser uma pouca vergonha, uma opção dos safados. Se animais podem ser homossexuais, eles também optam por isso? São sem-vergonha? São safados?
     O casamento civil, de qualquer regime: comunhão total dos bens, comunhão parcial dos bens e separação total dos bens, é um controle social exercido pelos governos, sem dúvida. Em outras palavras, a preocupação é única e exclusiva com os bens. Em 2008, segundo o IBGE, foram 937.538 casamentos e 150.387 separações e divórcios. O controle é tamanho que se sabem os números exatos desse controle. Em síntese, de cada 100 pessoas acima de 10 anos, há 54 pessoas solteiras, 37 pessoas casadas, 5 pessoas viúvas e 4 separadas.o casamento entre divorciados tem aumentado muito.
     Na cultura brasileira, até por força religiosa, a mulher foi e é considerada a “Rainha do Lar” - alheia a questões sociais, políticas, culturais e econômicas, à margem do mundo e das coisas do mundo. O título “Rainha do Lar” traz sempre uma conotação até mística e divina – o que não a valoriza como ser humano, histórico e geográfico, encarnado no tempo e no espaço. 
     O homem era considerado a cabeça, ou cabeça  da família, o chefe da família – termos já há muito em desuso. Com as muitas conquistas das mulheres no campo econômico, 35 % das famílias têm na mulher a pessoa de referência, aquela que é responsável pela unidade familiar, pela condução da casa. Desses 35%, 50% as mulheres não têm marido, nem companheiro.
     Muitas mulheres ainda, hoje, são submetidas a trabalho-escravo, ou dupla e, às vezes, tripla jornada de trabalho. Em muitas empresas, o mesmo trabalho feito por homens e mulheres tem salários diferentes para homens e mulheres.
     Os empresários ainda resistem a contratações de mulheres, por causa do casamento, maternidade, parto, licença maternidade. Elas formam quase que um pequeno exército de reserva, um pneu estepe: se o pneu furar, usa-se o estepe. A verdade é uma só: as mulheres constituem um pouco mais da nossa população e são duplamente exploradas: como trabalhadoras e como mulheres.
     A verticalização das relações, a hierarquia organizacional continuam, praticamente, sem nenhuma mudança, ou melhoramento, ou aperfeiçoamento. Assim, a subordinação, a submissão, a exploração da mulher também não são quebradas.
     Discute-se a questão de gênero, que não é uma questão puramente sexual. Um assunto maravilhoso que também será debatido em próximos AFA.
      Passamos pelo primeiro momento: sexo = prazer; pelo segundo momento: sexo = procriação; pelo terceiro momento: sexo = procriação + prazer. A hipótese para os próximos séculos é que o sexo volte a ser só e puramente prazer. A procriação – a produção de gente – será feita nos laboratórios.
     Se o mundo será como o descrito no livro: “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley não será assim tão bom, porque mostra uma humanidade, dominada pela ciência e altamente desumanizada, fruto de clonagens, controladas pelo Estado.


Questão   literária


     Uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos: Clarice Lispector (1920-1977). Nascida na Ucrânia, vem, com apenas dois meses de vida,  com a família para o Brasil, entrando por Alagoas, depois vai para Recife, ainda na primeira infância. No início do século XX, o Brasil passava por momentos de grande renovação de conceitos. Já, em 1922, a Semana de Arte Moderna – fato marcante na História Brasileira.
     Na infância, seus professores perceberam seus dons de escritora. Escrevia pequenas crônicas para os jornais da escola. Começa a escrever e não para mais. Escrever, para ela, como afirmar seus biógrafos, era um ato absolutamente natural, como quem respira, como quem vive simplesmente. Contraditoriamente, ao mesmo tempo em que acreditava que a escrita a libertava de suas angústias e solidão, queria ficar livre da quase obrigação que se impunha a si mesma de escrever. Chegou a afirmar que “um cachorro vivo valia mais do que um escritor, um artista, um poeta.”
     As questões existenciais, as razões e as finalidades de se viver sempre povoaram sua história pessoal e a história de seus personagens. A experiência como repórter (função exclusiva na época só para homens) , já no Rio de Janeiro, é a sua maneira de estar sempre em contato com os fatos, com a realidade, muitas vezes crua e amarga das pessoas.
     Mais do que escritora, na adolescência, era uma leitora inveterada. Lia tudo e sofria, sentia as dores dos personagens de tudo o que lia. Tinha uma mania de viver a vida dos outros, de angustiar-se com a angústia dos outros. Dostoievski, Kafka, Herman Hesse – seus autores preferidos – fizeram-lhe a cabeça. De cabeça cheia, escreve seu primeiro grande sucesso: “Perto do Coração Selvagem”, em 1943.
     Um impacto! Uma guerra mundial acontecendo e uma escritora escrevendo, dissecando a alma humana, penetrando na alma de Joana, personagem principal do romance, passando pela infância, adolescência e vida adulta.  Era muito mais importante a guerra que se trava dentro do coração, da alma, do espírito, do que a que acontecia no mundo.
     A sua linguagem e originalidade, suas ideias e conceitos impressionavam os críticos mais ferrenhos. Publica, em 1946, “O Lustre”. Lembro-me de que, quando ainda estudante do Curso de Letras, na FISTA – Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino – o professor de Literatura Brasileira, Luís Alberto Miranda – um dos mais importantes e estudiosos professores da cidade de Uberaba – pediu para que lêssemos “O Lustre”.
     A turma: Geraldo Miguel, Iraídes Madeira, Antônia Verçosa, João Rios, Luís Alberto, Bevenuto, Silvinha, Gedália, Vivaldo Bernardes... e eu escrevemos a Clarice Lispector para nos orientar no trabalho. Respondeu-nos secamente: “O que escrevi, escrevi. Não me lembro mais do livro.” Em outras palavras nos disse assim: “Se virem!”
     Em 1949, nasce-lhe o filho Pedro e publica “A Cidade Sitiada” – uma alegoria, mostrando na história de Lucrécia, a vida de muitas mulheres namoradeiras, do interior, do subúrbio que querem ir para a cidade grande: seus sonhos e suas frustrações, casamentos com quem não ama, A cidade grande traz muitos desafios, mais frustrações do que realização de sonhos.
     Logo depois, publica duas coletâneas de contos: “Alguns Contos” e “Laços de Família”. No início de minha carreira, como professor, “obrigava” a meus alunos lerem “Laços de Família”, por ser um livro relativamente pequeno, com treze contos, histórias independentes, facilitando a leitura. Dividia a turma em treze grupos e cada grupo deveria analisar, refletir sobre uma das histórias, por sorteio. Muitos “adoravam” a leitura. Ah! A Rede Globo adaptou o conto “Feliz Aniversário” tendo Dercy Gonçalves, interpretando a personagem principal.
     Escreve ainda “A Maçã no Escuro” – o engenheiro Martim pensa ter matado a esposa e foge. Na realidade, o leitor não sabe se ele matou ou apenas pensa ter matado. O fato é que no final da história, ele se entrega à polícia, depois de ter vivido outras situações amorosas. É um roteiro de fuga de si mesmo!
     Em 1964, publica, talvez sua obra-prima: “Paixão segundo G.H”. Um personagem sem nome, identificado apenas por letras, vive momentos de estranha angústia, pânico, medo, asco, repulsa, agonia, ânsia de vômito, náusea existencial, nojo, quando espreme uma barata na porta de seu guarda-roupas.     
     No mesmo ano, publica “Legião Estrangeira” – uma nova coletânea de contos e crônicas, antes publicados esparsamente. São, coincidência ou não, treze histórias. Nesse período difícil, vivíamos a ditadura militar no Brasil. Participa de passeatas principalmente contra o AI-5 – Ato Institucional nº 5 – que impõe a censura, persegue professores e intelectuais e jornalistas.
     Publica também livros infantis: “O mistério do Coelho Pensante” e “A Mulher Que Matou os Peixes”. Nesse último, ela cria um diálogo com o leitor. Justifica para o leitor o tempo inteiro que não matou os peixes, foram os peixes que morreram. No entanto, pede insistentemente ao leitor perdão, piedade, clemência, por ter esquecido de alimentar os peixes.
     Mais tarde, em 1969, publica “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. Uma aprendizagem amorosa! Uma história de amor! Homem e mulher aprendem a amar.
     Como estão vendo, Clarice viveu para escrever e escrever muito. Em 71, publica “Felicidade Clandestina” – uma nova coletânea de contos. Um livro memorialista e quase que autobiográfico. Na mesma linha, publica “Água Viva” – livro de anotações, fragmentos, contos. O tema: a morte!
     Clarice não para. Escreve ainda: “Onde estivestes de Noite:” – “A Via Crucis do Corpo” – um livro meio erótico. Um dos contos “O corpo” foi transformado em filme. Veja o filme, vale a pena! É uma ménage a la trois, com Antônio Fagundes, Marieta Severo e Cláudia Gimenez – Ganhador do Festival de Brasília, em 91.
     Por último, publica “A Hora da Estrela” – narra a história de Macabeia – uma moça pobre, nordestina, que na cidade grande busca seu príncipe encantado, com quem sonhara a vida inteira. Essa obra também virou filme, tendo Marcélia Cartaxo como atriz principal no papel de Macabeia. Vale a pena ver o filme, que tem sido mostrado na TV Cultura, aos sábados, à noite. Aliás, tem cada filmaço brasileiro!
     Clarice morreu para ser eterna. Quem morre não morre mais! Vale a pena ler e curtir a obra completa de Clarice Lispector – a maior escritora brasileira.
         

Questão   filosófica


     Bastante desafiador é tentar definir, conceituar as coisas e os seres. O ser humano, durante muito tempo, foi entendendo como um animal racional. O que significa ser racional? É pensar? É racionar? É decidir?
     Para alguns pensadores e professores, pensar é interrogar, é provocar, é causar? Mas, interrogar o que a quem? Provocar o que em quem? Causar o que em quem?
     Simultaneamente, interrogar-se a si mesmo, interrogando o mundo que está dentro e fora de cada um de nós. A maravilha do ser homem é ter a certeza de que ele vai se construindo, construindo o mundo ao seu redor. Não é definitivamente um ser pronto, acabado. É um ser em expansão, em construção.        A maravilha do ser humano é saber que o que hoje é verdade, amanhã pode não ser.
     Nada poderá se interrogado, provocado, causado isoladamente. “Sou-para-mim e sou-para-os-outros” ao mesmo tempo. Não basta que algo que eu faça seja bom para mim. É preciso ser bom também para o outro, ou para os muitos outros. Assim, deveria ser professor enquanto isso fosse bom para mim e para os outros. E assim, tudo. Nasce daí o conceito de ética. Não basta ser legal, é preciso que tudo que cada um faça, seja bom, verdadeiro, belo, importante para todos.
     Os animais – até onde é possível intuir - diferentemente dos homens não tem consciência do tudo seja animal. Uma formiga, uma abelha trabalham adoidado, ser úteis umas às outras, mas não se interrogam, não provocam, não causam. Trabalham e morrem, absolutamente igual a todas em todos os tempos e em todos os lugares. Por isso, também não se angustiam, não se magoam, não guardam rancores, nem ódios.
     Situação semelhante com uma rosa e com todos os vegetais. Uma rosa nada interroga, simplesmente desabrocha, perfuma o ambiente e morre. É bem verdade que animais e vegetais se deixam nas sementes, nos herdeiros.
     Os homens sabem onde estão e quando estão vivendo, têm noção de tempo e de espaço, por isso um ser histórico-geográfico.  Ainda nada se sabe sobre o que possa significar uma natureza humana, distinta e específica.
     Como ser relacional e consciente de relações, relaciona-se consigo relacionando com os outros homens, com todos os seres vivos e não-vivos e com Deus. Os homens fazem o mundo e o mundo faz os homens  – via de mão dupla. Um ser também finito, limitado por vontade ou por imposição. A limitação faz com que sejamos seres sempre em busca de libertação. Sempre haverá algo para libertar-se.
     Encarnado na história e geografia dos homens, terá motivos e razões para libertar-se, porque muitas vezes abrimos mão, consciente ou inconscientemente, de nossa subjetividade, ser sujeito para ser objeto. Os valores humanos, valores ligados à existência e às necessidades verdadeiramente humanas, muitas vezes se deterioram.
     A vida humana torna-se cada vez mais complexa e mais plural e mais contraditória – o que não é mal. Por ingenuidade ou estupidez, queremos a nossa vida reduzida em conceitos, em reducionismos e generalizações, em maniqueísmos, em sistematizações de poucas ou nenhuma ideia. Daí nasce a massificação, a cultura de massa, a indústria cultural, manipulada por alguns poucos. Estamos perdemos o nosso rosto e também não queremos revelá-lo aos outros.  
     Ser humano que não quer evoluir-se, sair do lugar em que está, aperfeiçoar-se, conhecer-se mais e melhor, com a cumplicidade do outro, para ser, para ser-mais, para ser-melhor, não é ser humano, senão boneco manipulado, joguete do destino e da sorte, determinado à frustração. O problema é que frustrado, deixa outros também frustrados, porque sozinho não se faz nada, não se é.
  

Questão   franciscana


     “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz!” Senhor é o título de respeito que damos às pessoas, especialmente às mais idosas ou àquelas revestidas de algum título de autoridade. Senhor é também o nome mais frequente na maioria das religiões para expressas a reverência à Fonte originária de todo o ser, Deus.
     Senhor foi um dos primeiros títulos a Jesus. Inicialmente para expressar o respeito do povo e de seus discípulos em razão de sua palavra, de seus milagres e de sua prática libertadora dos pobres e dos oprimidos. Mais tarde, após sua ressurreição para enfatizar seu caráter divino de Filho de Deus e de sua importância para entender o destino final do homem e do mundo.
     Aplicado a Deus, Senhor quer dizer Criador do Céu e da Terra porque tirou todas as coisas do nada para serem expressões de sua superabundância de vida e de amor. Pelo fato de ser Criador, Deus sempre está presente em cada coisa, em sua raiz mais íntima. Se, por absurdo, surpreendesse por um momento mínimo sua vontade criadora, todos os seres voltariam ao nada.
     Senhor possui também uma conotação política. Os reis e os dominadores dos povos se fazem chamar de senhores, observava Jesus. Os imperadores romanos queriam ser chamados de “Senhor” para expressar sua pretensão divina.
Texto extraído de “A Oração de São Francisco – uma mensagem para o mundo atual” de Leonardo Boff, publicado pela Editora Sextante, 1999.