quarta-feira, 25 de maio de 2011

QUESTÃO -6

AFA
ACADEMIa FRANCISCO DE Assis
questão
2011 – 6ª edição
Estamos ainda vivendo o período Pascal, período de libertação, de conversão, de transformação. Queiramos ou não, por força de nossa consciência e da natureza humana, há muitas páscoas na nossa existência. Podemos até não chamar de páscoa o que acontece na vida, mas há muitas mudanças enquanto estivermos vivendo. Quando a gente é criança, vive como criança; quando adolescente, vive como adolescente; quando jovem, vive como jovem; quando adulto, vive como adulto; quando idoso, vive como idoso. Em cada momento, uma maneira própria de viver. A passagem de um para outro é um novo parto, é um renascer para a vida. Essa metamorfose não é tão acentuada, ou visível, como acontece, por exemplo com a borboleta: ovo – larva – crisálida – borboleta. Vale dizer, então, que em tudo que há vida, há metamorfoses. A diferença é que os humanos têm consciência dessa transformação. A conversão é uma opção. Na história da humanidade, há muitos exemplos “famosos” de conversão, como a do apóstolo Paulo, de Aurélio Agostinho,de Francisco de Assis e tantos outros iluminados e santos. Aqui, no Brasil, no campo da política, o melhor exemplo é de Teotônio Vilela, lembram-se? Viver a Páscoa é viver com intensidade e em plenitude.
Professor Décio Bragança Silva
Questão   religiosa

   A palavra Páscoa vem do latim “paschalis” que por sua vez vem do hebraico “pessah”. No Antigo testamento, a Páscoa era celebrada para lembrar a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho, comandados por Moisés – libertador de seu povo sob o jugo egípcio.
   A Ressurreição de Jesus Cristo – a vitória sobre a morte – é fundamental para a nossa fé. “Vã seria a nossa fé, se não houvesse a Ressurreição”.
   A Páscoa tem uma data móvel, sempre celebrada no primeiro domingo da lua cheia no hemisfério sul. Os judeus, antes da Era Cristã, comemoravam essa data com a ceia pascal com a imolação de um cordeiro, pão ázimo (sem fermento) e ervas.
   Na Páscoa, hoje, celebra-se a vitória de Jesus sobre a morte. A Ressurreição, segundo os evangelistas, foi uma espera ansiosa e dolorosa, depois de uma Sexta-Feira de morte e muito sangue. No primeiro dia da semana, considerado o Dia do Senhor, Jesus aparece às mulheres, dentre elas Maria Madalena; depois se apresenta a Pedro, aos apóstolos.
   Por causa da Ressurreição é que se propagou rapidamente a doutrina cristã. Não fosse a Ressurreição, sua morte teria sido só uma notícia de crueldade, de linchamento, de desumanidade – como tantas que vemos na televisão e lemos nos jornais.
   Além de ser o fundamento, a Ressurreição é a base, o alicerce da fé, anunciando ou antecipando o que irá acontecer com todos nós e com cada um. “O corpo do homem é corruptível, por isso morre; mas o ser humano, enquanto ser histórico-geográfico ressuscitará nas coisas e nas pessoas que deixou.” Depois de morto, não morre mais, não morre nunca mais!
   Nos últimos dois mil anos, a história registra como as pessoas procuram recordar e viver esse momento mais importante para a Cristandade, criando alguns símbolos como ovos de Páscoa, panetone, peixe, coelho, trigo, uva, água, óleo, velas...
   O comércio não perde a oportunidade de faturar. Mesmo tendo esse aspecto econômico, o comércio é importante, no mínimo, porque nos faz lembrar que a Páscoa não é um dia qualquer, não é uma data como outra qualquer.
  
  
Questão   educacional

   Os autores dos livros didáticos, claro, têm a obrigação de usarem uma linguagem científica e correta – dentro de um padrão lingüístico – o que não significa que devam usar tamanha erudição que os estudantes não possam aprender e apreender o conteúdo. São textos, muitas vezes, prenhos de terminologias complicadas, obscurecendo e ocultando o essencial.
   A falta de clareza dos textos não é por acaso. Se poucas pessoas têm acesso à ciência, melhor para os autores, normalmente professores. A complicação de termos e ideias é a arma da opressão, para deixar as coisas no mesmo lugar. É também uma maneira de não comprometerem-se com a educação. A sofisticação da linguagem cumpre o seu papel de aceitação das injustiças e das desigualdades. “Você não consegue entender o texto, porque você é ignorante, porque você é um incapaz.”
   Seu olhar mora nas estrelas, enquanto os problemas sociais e humanos não se resolvem. A linguagem científica, dentro de uma metodologia científica, rodapés em profusão, milhares de referências bibliográficas... poderiam ser simplificadas.
   Não se trata de simplismo, não, mas, na relação ensino/aprendizagem, tudo tem de ser esmiuçado, traduzido para a compreensão plena das ciências, como ponto de partida. Muitos professores, por exemplo, na graduação, porque estão fazendo mestrado ou doutorado, usando a mesma linguagem desses cursos. Brinco, às vezes, com meus colegas: estamos ensinando a consertar estações interplanetárias e ninguém sabe trocar uma lâmpada. Estamos estudando e ensinando a conotação das estrelas cadentes no horizonte finito das estratosferas ambulantes e não sabemos fazer um verbo concordar com o sujeito.
   A impressão que temos é que para ser cientista é preciso ser complicado. A complicação também é uma forma de estar, de ficar ausente dos problemas concretos. Sabemos que muitas vezes é preciso sacudir o entusiasmo, aguçar a curiosidade, desacomodar as atitudes de nossos alunos – o que necessariamente não será usando termos sofisticados.
   Nada disso significa reduzir, minimizar os saberes e os conhecimentos. O crivo, em sala de aula, sempre tem de ser o senso crítico. Cristóvaão Colombo só descobriu a América, porque desafiou as teorias científicas da época. E assim aconteceu com todos os cientistas e artistas.
   Ninguém é dono da verdade. Ninguém é tão inteligente que possa aprender algo e ninguém é tão estúpido que nada possa ensinar. Ciência não é reproduzir o já sabido e educação não pode ser a reprodução dos interesses e intenções da burguesia, dos poderosos. Ciência não é passividade, concordância, homogeneidade e acomodação.
   Os autores e os professores, de uma certa maneira, têm de amarrar as aspectos políticos ao econômico, que se amarra ao cultural, que se amarra ao científico, que se amarra ao religioso, que se amarra ao ideológico, que se amarra a tudo. Isso vale dizer que a realidade humana não está organizada como um guarda-roupas, cheios de gavetas – isso é o especialista, o pesquisador que visam aos próprios interesses.
   O que não se questiona e deveria ser constantemente questionado, em sala de aula, é o que está por trás de uma afirmação e/ou conceito. “Isso que ensino interessa a quem? Está a favor de que e de quem? Isso é bom para que e para quem? Isso que ensino beneficia a quem? Isso que ensino prejudica a quem?”
   A educação e a ciência não podem estar cristalizadas, empacotadas, estratificadas, prontas, acabadas. O ser humano, para glória dele, é um ser em expansão, um ser em construção. O grande pensador norte-americano, Noam Chomsky, amante do Brasil, faz um distinção entre ciência e pesquisa. Diz ele que o mal das universidades brasileiras é que fazem ciência, fazem pesquisas.
   Para ele, pesquisadores e cientistas fazem a mesma coisa. O que os diferencia é para quem fazem. O pesquisador trabalha para-si, para engrossar o seu currículo, para ter privilégios, para ter reconhecimento e uma posição social favorável e ganhar mais. O cientista trabalha para as pessoas, para os outros. Um Sabin, um Pasteur, um Fleming... não estavam preocupados com a fama, com o sucesso, com o dinheiro, com o poder, mas preocupados com os outros, com a humanidade.
   Um dia, conheci Dr. Professor Gilberto Chierese da USP/São Carlos, conheci o Dr. Professor Otaviano Ribeiro Mendonça da Uniube, criadores e sintetizadores da fosfoetanolamina – um nutriente que combate o câncer (procurem na Internet!) – e perguntei-lhes por que não patenteavam o nutriente para vendê-lo e ficarem ricos. A resposta dos dois foi praticamente a mesma: “Estudei em escola pública, fiz meu mestrado e doutorado em escola pública. O povo me pagou os estudos e devolvo ao povo uma parte do que fizeram para mim.” Isso é ciência.
   Na verdade, um inventor, um cientista, um professor sabem que nunca estão ou estavam sozinhos: trazem dentro de si seus pais, seus primeiros e muitos professores, os muitos autores de livros, os colegas de classe, sem falar do aspecto social, humano, natural, holístico, metafísico, espiritual. “Eu sou a humanidade”.
   Em educação e em ciência não pode haver neutralidade – proposta de pesquisadores para não se comprometerem. Os meios de comunicação de massa foram criados para a acomodação, passividade, para fazer tudo parecer muito normal. Publicidade e marketing existem para estimular o consumo de coisas e de ideias. Ciência e educação existem para tirar as pessoas de um lugar e levá-las para outro lugar, mais feliz e mais humano, mais igual e mais encantado com a vida.   
   A escola, é bem verdade, muitas vezes, está a serviço da difusão dos valores de uma cultura dos poderosos, como que “serviçal” de um sistema, privilegiando mais do que a ciência, cultura e arte, os comportamentos e as atitudes, a obediência e o controle, produzindo mão-de-obra para o mercado.
   Denúncias infundadas e críticas ferrenhas à escola são publicadas praticamente todos os dias nos meios de comunicação de massa. Não é por acaso, há uma intenção demoníaca nisso. Os meios de comunicação estão atrelados aos interesses de alguns poucos, donos do dinheiro e das ideias. As universidades se expandem – o que é muito bom. O acesso à educação tem-se ampliado – o que é muito bom. Aí, os jornais “desejam” que o acesso seja restrito, alegando inclusive um possível excesso de democracia, propondo restrições ao acesso às universidades – o que é um absurdo.
   Vale dizer, então, que a população, de modo geral, sofre pressões de dois lados: dos meios de comunicação que querem um acesso à educação com muitos limites; e das próprias universidades que fazem questão de usar um tipo e uso de linguagem dos professores e pesquisadores que, por si só, impõem uma restrição ao conhecimento e aos saberes. Em outras palavras, é como se dos dois lados se ouvisse falar: “Você não é capaz! Você é ignorante! Você tem de ser um técnico! Você tem de ficar no lugar onde está. Universidade não é para você!”
   Vamos voltar um pouco na história formal da educação. Há quase 900 anos foi criada a primeira universidade no mundo – a Universidade de Bolonha, na Itália. Quem tinha acesso a ela? Não havia muitas restrições, mas também as pessoas não acreditavam na educação, como uma proposta libertadora, como proposta de ascensão social, cultural e econômica. Havia poucos interessados.
   A Universidade de Bolonha, praticamente, acolhia a todos, sem nenhum documento, por exemplo, de comprovação de escolaridade anterior. A universidade se propunha, inclusive de alfabetizar os analfabetos, já que não era uma exigência para o seu acesso. Com o passar dos tempos, a própria universidade de Bolonha impôs algumas poucas restrições: que as pessoas soubessem ler e escrever. Isso criou a necessidade de se criar escolas anteriores à universidade.
   O processo formal da educação aconteceu de cima para baixo, sob o ponto de vista atual: primeiro a universidade, que começou a exigir alguns saberes anteriores; aí nasce a escola que preparasse os estudantes que desejavam a universidade; e o caminho foi sendo aberto para trás. Para facilitar, vamos imaginar essa situação com os olhos de hoje: a universidade exige o ensino médio, que exige o ensino fundamental (primário e secundário) que exige uma educação infantil.
   Hoje, por várias razões e interesses e intenções, as crianças e adolescentes e jovens permanecem muito tempo na escola. É na realidade muito tempo perdido, se formos pensar com mais seriedade. Na década de 50, as crianças entravam na escola com sete anos; na de 60, com seis anos; na de 70, com cinco anos; na de 80, com quatro anos. Hoje, há escolas para meninos a partir de seis meses e com 200 dias letivos.
   Situação semelhante com o tempo de permanência na escola: na década de 60, estudava-se por ano oito meses: março, abril, maio, junho – primeiro semestre; agosto, setembro, outubro, novembro – segundo semestre. Tínhamos quatro meses de férias. Por exigência das famílias e da sociedade, esse tempo foi sendo ampliado. Por exigência também dos empresários de ensino, o tempo foi sendo ampliado porque teriam de pagar aos professores treze salários anuais e os alunos tinham “apenas” oito meses de aula. Os pais não admitiam pagar doze mensalidades e oito meses de aula. Também os professores se profissionalizaram, isto é, leigos, sem vínculos religiosos, começavam a optar pelo trabalho na educação. Freqüentar escola não era obrigação – não havia leis que obrigassem os pais a matricularem seus filhos em escolas. Hoje, pais não matriculam seus filhos em escolas são considerados criminosos e podem até ir para a cadeia.
   Nada disso isenta a escola e os professores de suas responsabilidades. Não pode haver transformação social sem escolas e professores, que se esforçam em propor a unidade teoria/prática. A ação, a prática é que formam a consciência, a cidadania. Não basta teoria. 
                   
                 
Questão   didática

Até para a gente se descontrair um pouco vou, vez e outra, contar histórias de professores. Umas boas e outras não tão boas, mas sempre evitando nomes, porque a nossa intenção não é essa.
Um professor muito famoso, mais famoso do que competente, mas vivo e esperto, reside em Uberaba, mas é conhecido pelo nome da cidade de onde veio. Um ótimo palrador e bem convincente. Muito querido nas lides políticas e muito respeitado no meio acadêmico. Por quê? Não sei, não quero saber, não quero saber quem sabe e tenho “raiva” de quem sabe! O fato é que é muito querido e respeitado pelos alunos. Ah! Isso é!
É uma espécie de professor polivalente: falta um professor de Sociologia, lá estava ele; falta um professor de Economia, lá estava ele; falta um professor de Anatomia, lá estava ele; falta um professor de Hermenêutica, lá estava ele... Dá aulas de qualquer matéria, de qualquer área, de qualquer disciplina.
Na época, a matrícula, na época, era por disciplina e feita e escolhida pelo próprio estudante. Por causa da fama do professor, um estudante resolve matricular-se em três disciplinas, ministradas pelo mesmo professor. Primeira semana de aula, o professor normalmente apresentava seu programa, seu plano de aulas, o organograma com dias já previstos para as provas. Tudo de acordo com os conformes!
Já na primeira semana, o estudante ficou meio encabulado porque para a disciplina X a programação era a mesma da disciplina Y e Z, com a mesma bibliografia básica.
Na segunda semana, o aluno aproxima-se do professor e argumenta:
- Professor, estou fazendo as disciplinas X, Y e Z e eu percebi que o senhor apresentou o mesmo plano, com a mesma bibliografia. Tudo absolutamente igual.
- Qual é o seu nome? – pergunta o professor.
- Meu nome é Fulano de Tal! (O estudante da época, hoje professor da Uniube, não quer que seu nome seja revelado!)
- Fulano de Tal, é assim mesmo. Todas as universidades do Brasil e do mundo inteiro fazem assim!
- Mas, para mim, é perda de tempo, além de estar pagando uma nota preta!           
- Eu sei, eu sei. E o que você quer?
- Não sei! O senhor é que decide.
Diplomaticamente, o professor propõe:
- Vamos fazer o seguinte: você assiste só a uma das disciplinas. A nota que você tirar nela, será a nota das outras duas. Que tal? Concorda?
- Mas, professor, estou pagando por três disciplinas e o preço está muito puxado.
- Fulano de Tal, o interesse é seu! Você está no último período e é melhor para você não criar problemas, porque poderá não formar-se.
- Professor, não quero criar problema, estou buscando soluções!
- Fulano, pague três e leve uma! É melhor para você!
- O senhor não quer que, pelo menos, eu venha fazer as provas das outras disciplinas?
- Não, não, não, porque a prova também será a mesma!                
- E a chamada? Meu nome aparece nas três listas de chamada...
- Você me fala em qual turma vai assistir à aula e nas outras listas eu pulo seu nome.
Esse professor, muito querido e amado, deu muitas aulas de muitas disciplinas até a sua aposentadoria.
Moral da história: “Quem tem fama, dorme na cama!”

Questão   utópica

A cidade de Santana de Parnaíba, bem próxima de São Paulo, dá um exemplo para todo o país.
Em agosto de 2007, um grupo de professores e de pessoas preocupadas com a educação, com o ensino, com a cultura, resolve “promover” uma chuva de livros, de CDs, DVDs. Quem quisesse e pudesse, levava para uma praça pública na parte velha da cidade seus livros e colocava-os à disposição de quem quer que seja. Cada pessoa levava e leva ainda hoje para casa o que quiser, sem absolutamente nenhuma burocracia, gratuitamente.
Os idealistas e idealizadores argumentam que depois de um livro lido, ninguém o lê novamente, já que existe tanta “coisa” para ser lida. Esse mesmo argumento serve para os CDs e DVDs. Um bom livro tem de ser lido pelo maior número de pessoas possível. Esse mesmo argumento serve para os CDs e DVDs.
Em outras palavras, eu, você, qualquer pessoa tem acesso direto e livre e sem nenhum gasto de uma biblioteca, de um acervo impressionante de músicas e canções e filmes, não encontrados com facilidade no mercado. Obras raras e raríssimas estão à disposição de todos.
O projeto, sob o ponto de vista econômico é muito interessante, mesmo porque cada cidadão, por princípio deveria comprar apenas um livro, um CD, um DVD e teria acesso a tudo o que desejasse, sem mais nenhum pagamento. Sob o ponto de vista arquitetônico, é também muito prático, já que as casas, principalmente as de conjunto habitacional, são muito pequenas e sem lugar para livros e discos.  
Aos poucos, as pessoas vão entendendo o espírito da “coisa”. No início, alguns não voltavam para “devolver” o livro e colocá-lo novamente à disposição de outros. Seis meses depois, praticamente tudo é devolvido e muitas outras pessoas estão levando seus livros e colocando também à disposição de quem quer que seja. O interessante é que para levar um livro para casa não há cadastro absolutamente nenhum.
A “devolução” de livros depende somente de quem os levou para casa, porque nem o nome da pessoa é registrado. É assim que se educa um povo. Pior de tudo: isso não virou notícia nem nos jornais, nem nas televisões, porque também esses meios de comunicação têm outros interesses.
Há prefeitos muito estúpidos neste país. Não há de ver que num desses domingos de “chuva de livros”, apareceu um fiscal da prefeitura, do Departamento de Posturas, querendo cobrar impostos!? Eh! Brasil!

Questão   vernácula

A formação de palavras é um estudo verdadeiramente fascinante. Na realidade, não há nenhum idioma puro. As pessoas vão criando palavras dependendo de sua necessidade, sem muita explicação. “A necessidade faz o sapo pular” – diziam os antigos. Conhecendo radicais gregos, latinos, celtas, ingleses, japoneses ou de qualquer língua, misturamos radicais e formamos novas palavras.
Com o avanço das ciências, novas palavras têm de ser criadas. Uma ferramenta nova, um produto novo, como as pessoas quando nascem são registradas e/ou batizadas, novos nomes vão sendo registrados e dicionarizados, sem nenhum critério, praticamente.
Hoje, vamos “brincar” com o radical: LOGIA – com o auxílio do Dicionário Aurélio. Vamos citar as palavras referentes, vocábulos ligados à ciência.
Sabendo o sentido de LOGIA, você poderá criar outras palavras, Vamos, então, dar o sentido de LOGIA = discurso, expressão, linguagem; estudo, ciência; coleção.
Como são muitas, mas muitas palavras com o radical LOGIA, vamos, hoje, começar com a letra G até a Letra M (Continuação da edição anterior) Agora, algumas palavras:
·  galactologia = tratado ou ciência relativa ao leite;
·  gamologia = tratado ou discurso a respeito do casamento;
·  gastrenterologia – gastroenterologia = parte da medicina que se ocupa das doenças do aparelho digestivo;  
·  gastrologia = arte culinária; o conhecimento profundo dessa arte;
·  gemologia = parte da geologia que trata das pedras preciosas;
·  genealogia = lista, enumeração ou diagrama com os nomes dos antepassados de um indivíduo e a indicação dos casamentos e das sucessivas gerações que o ligam a um ou mais ancestrais; o conjunto ou série desses antepassados; estirpe, linhagem; o estudo da origem das famílias; procedência, origem; conjunto de descendentes dum indivíduo; estudo da origem e formação do indivíduo ou da espécie;
·  genecologia = estudo da interação entre genótipos e meio; ecologia das espécies;
·  genesiologia = estudo de todos os aspectos de reprodução;
·  genetliologia = erte de prognosticar o futuro pela observação dos astros; arte de explicar o horóscopo;
·  geobiologia = estudo da evolução da vida em função da evolução da Terra;
·  geocronologia = capítulo interdisciplinar da química e da geologia que visa a determinar a idade de rochas mediante análise de natureza química, como, p. ex., a medição da razão urânio/chumbo na rocha, ou da razão rubídio/estrôncio;
·  geologia = ciência cujo objeto é o estudo da origem, da formação e das sucessivas transformações do globo terrestre, e da evolução do seu mundo orgânico; tratado ou compêndio dessa ciência; exemplar de um desses tratados ou compêndios;
·  geomorfologia = ciência que estuda as formas do relevo terrestre;
·  gerontologia = ciência que estuda os problemas do velho sob todos os seus aspectos: biológico, clínico, histórico, econômico e social;
·  ginecologia = parte da medicina que se ocupa das doenças privativas das mulheres;
·  glaciologia = ramo da geofísica que estuda a água superficial da Terra, quando se apresenta sob a forma de gelo;
·  gliptologia = ciência que tem por fim o estudo das pedras antigas gravadas; gliptografia;
·  glossologia – glotologia = ciência da linguagem; glótica.
·  glotocronologia = método que procura relacionar, por meio de técnicas estatísticas, a percentagem de cognatos presentes em duas línguas com o tempo em que ambas se originaram de uma única fonte;
·  gnomologia = filosofia sentenciosa;
·  gnoseologia – gnosiologia = teoria do conhecimento;
·  grafologia = o estudo dos sistemas de símbolos criados para a comunicação lingüística em sua forma escrita; grafética, grafema; análise da personalidade de um indivíduo por meio do estudo dos traços de sua escrita, como, p. ex., o tamanho das letras, o ângulo de inclinação, a regularidade, a rapidez e a espessura do traçado;
·  gramaticologia = estudo científico da gramática;
·  gramatologia = tratado das letras, alfabeto, silabação, leitura e escrita;
·  halologia = Halografia; tratado dos sais;
·  haplologia = contração ou redução dos elementos similares de um vocábulo;
·  helcologia = estudo das úlceras;
·  heliogeologia = estudo da influência da atividade solar sobre a vida na Terra;
·  helmintologia = tratado sobre vermes intestinais;
·  hematologia = estudo, sob todos os aspectos, do sangue e órgãos hematopoéticos; ramo da medicina que trata das doenças do sangue e órgãos hematopoéticos;
·  hemerologia = arte de compor calendários;
·  hepatologia = estudo do fígado; estudo das doenças do fígado;
·  herpetologia = parte da zoologia que trata dos reptis; herpetografia;
·  heterologia = qualidade de heterólogo, uso de palavras e termos diferentes;
·  hidatologia – hidrologia = estudo da água, nos estados líquido, sólido e gasoso, da sua ocorrência, distribuição e circulação na natureza;
·  hidrobiologia = ciência que estuda os organismos aquáticos sob todos os seus aspectos e, em particular, os que vivem nas águas continentais doces ou salgadas;
·  hidrogeologia = parte da geologia que estuda o comportamento e a distribuição das águas subterrâneas em diferentes tipos de rochas e formações;
·  hierologia = tratado ou estudo das diferentes religiões;
·  higiologia = ramo do conhecimento que estuda a teoria e a prática da higiene e do saneamento;
·  higrologia = ramo da física que trata da umidade atmosférica; tratado dos humores ou fluidos do corpo humano;
·  himenologia = tratado acerca das membranas;
·  hinologia = arte da composição de hinos; ato de cantar ou recitar hinos;
·  hipnologia = tratado acerca do sono e seus efeitos;
·  hipologia = tratado ou estudo acerca do cavalo;  
·  hipopatologia = patologia do cavalo;  
·  histerologia = recurso de estilo que consiste em o escritor ou o orador referir-se primeiramente àquilo que deveria vir depois; hísteron-próteron; estudo e descrição do útero;  
·  histofisiologia = ramo da histologia que estuda células e tecidos do ponto de vista da função deles;  
·  histologia = ramo da biologia que estuda a estrutura microscópica normal de tecidos e órgãos;
·  histopatologia = estudo, em nível microscópico, de lesões orgânicas;  
·  historiologia = filosofia da história;  
·  hititologia = estudo dos restos arqueológicos dos hititas, de sua língua e das maneiras de grafá-la;  
·  homofonologia = estudo das palavras homófonas;
·  homologia = qualidade de homólogo; repetição das mesmas palavras, conceitos, figuras, etc., no mesmo discurso; semelhança de estrutura e de origem, em partes de organismos taxonomicamente diferentes;  
·  homomerologia = tratado dos sistemas orgânicos;  
·  iamologia – farmacologia = parte da medicina que estuda os medicamentos em todos os aspectos;  
·  iconologia = representação alegórica ou emblemática de entidades morais; explicação de imagens ou monumentos antigos; explicação das figuras alegóricas e seus atributos; parte da história das belas-artes que estuda o tratamento dos assuntos em diversos artistas e épocas;
·  ictiologia = parte da zoologia que trata dos peixes;  
·  ideologia = ciência da formação das idéias; tratado das idéias em abstrato; sistema de idéias; conjunto articulado de idéias, valores, opiniões, crenças, etc., que expressam e reforçam as relações que conferem unidade a determinado grupo social (classe, partido político, seita religiosa, etc.) seja qual for o grau de consciência que disso tenham seus portadores; sistema de idéias dogmaticamente organizado como um instrumento de luta política; conjunto de idéias próprias de um grupo, de uma época, e que traduzem uma situação histórica;   
·  idiobiologia = ramo da biologia que se ocupa do estudo de organismos como indivíduos;  
·  implantologia = estudo dos fenômenos, procedimentos técnicos, etc., referentes a implantes;  
·  imunematologia = estudo das propriedades antigênicas das células sanguíneas, dos diferentes anticorpos presentes no soro sanguíneo, e das manifestações patológicas resultantes da reação destes anticorpos com aqueles antígenos;
·  imunoenzimologia = ramo da imunologia em que a pesquisa e a dosagem dos antígenos e dos anticorpos são efetuadas mediante o emprego de enzimas;  
·  imunologia = ramo da medicina que estuda os mecanismos pelos quais o organismo responde a antígeno(s), reconhece a si e o que é estranho a si, e se ocupa, ainda, dos aspectos biológicos (observados in vivo), sorológicos (observados in vitro) e físico-químicos dos fenômenos imunológicos;  
·  imunoparasitologia = ramo da parasitologia que usa conhecimentos de imunologia no estudo das interações de parasito e hospedeiro;  
·  imunopatologia = ramo da patologia que estuda as reações imunológicas a doenças, e as doenças cuja etiologia e patogenia tenham base imunológica;  
·  indologia = estudo de coisas referentes à Índia;  
·  infectologia = ramo da medicina que se ocupa do estudo das doenças infecciosas;  
·  insectologia – insetologia = entomologia; estudo dos insetos;
·  laringologia = ramo da medicina que estuda o laringe em todos os seus aspectos;  
·  lepidopterologia = parte da zoologia que trata dos insetos lepidópteros;  
·  leprologia = parte da medicina que se ocupa da lepra;  
·  leptologia = discurso delicado, fino, sutil; estilo minucioso e culto;  
·  lexeologia – lexiologia – lexicologia = parte da gramática que se ocupa do valor etimológico e das várias acepções das palavras; estudo dos elementos de formação das palavras; estudo da evolução do léxico;
·  limnologia = parte da biologia que trata das águas doces e de seus organismos, principalmente do ponto de vista ecológico;  
·  litologia – petrologia = estudo de pedras; litologia humana = tratado dos cálculos e concreções que se formam no organismo humano; litologia submarina = ramo da oceanografia física que trata da origem e natureza dos depósitos marinhos;
·  macrocosmologia = tratado ou ciência de todo o Universo;  
·  macrologia = estilo difuso; elocução prolixa;  
·  macrometeorologia = estudo dos processos atmosféricos responsáveis pelas diferenciações de macroclimas sobre a superfície terrestre;
·  magnetologia = estudo das ações magnéticas de ímãs e correntes elétricas, e das propriedades magnéticas da matéria; ciência do magnetismo;  
·  magnetosferologia = ciência que estuda as magnetosferas;
·  malacologia – conquiliologia = tratado acerca dos moluscos;
·  malariologia = parte da medicina que estuda a malária;
·  mariologia = o estudo do culto que se presta à Virgem Maria;
·  mastologia = ramo da medicina que se ocupa do estudo da mama, em todos os seus aspectos;  
·  mastozoologia = estudo particular dos mamíferos;  
·  mateologia = estudo inútil de assuntos superiores ao alcance do entendimento humano;  
·  matesiologia = ciência do ensino em geral;  
·  membranologia = estudo das membranas do organismo;
·  mercadologia = marketing;
·  merceologia = parte da ciência do comércio que trata em especial da compra e venda, e estuda a classificação e a especificação das mercadorias;  
·  mereologia = a lógica da relação entre as partes e o todo;  
·  mericologia = tratado acerca dos ruminantes;  
·  merologia = tratado dos princípios elementares de qualquer ciência;  
·  mesologia = ecologia;
·  mesometeorologia = ramo da meteorologia que estuda os fenômenos atmosféricos que ocorrem numa zona cuja extensão horizontal é da ordem de uma centena de quilômetros;
·  metabologia = parte da medicina que estuda as doenças do metabolismo;
·  metapsicologia = especulação de caráter filosófico sobre a origem, estrutura e função do espírito, bem como sobre as relações entre o espírito e a realidade;  
·  meteorobiologia = ciência que estuda os efeitos das condições meteorológicas e do clima sobre os seres vivos;  
·  meteorologia = ciência que investiga os fenômenos atmosféricos, e cujas observações possibilitam a previsão do tempo;
·  metereopatologia = Baropatologia; estudo das condições mórbidas que têm fenômenos atmosféricos como causas, ou concausas;  
·  metodologia = a arte de dirigir o espírito na investigação da verdade; estudo dos métodos e, especialmente, dos métodos das ciências; conjunto de técnicas e processos utilizados para ultrapassar a subjetividade do autor e atingir a obra literária;  
·  metrologia = conhecimento dos pesos e medidas e dos sistemas de unidades de todos os povos, antigos e modernos;
·  micetologia – micologia = parte da botânica que trata dos fungos;  
·  microbiologia – bacteriologia  = estudo ou tratado dos micróbios;
·  microcosmologia = descrição ou estudo do corpo humano;  
·  micrologia = discurso frouxo, de conteúdo inexpressivo; tratado sobre os corpos microscópicos;
·  miiologia – miologia = tratado ou descrição das moscas;
·  mimologia = arte e técnica da mímica; ação de imitar, nas palavras, o som dos objetos que elas designam; mimologismo; mimografia;
·  mineralogia = ciência que trata dos minerais;
·  mirmecologia = estudo ou tratado acerca das formigas;
·  misologia = ódio ao raciocínio, à lógica; horror às ciências;
·  mitologia = história fabulosa dos deuses, semideuses e heróis da Antiguidade greco-romana; o conjunto dos mitos próprios de um povo, de uma civilização, de uma religião; ciência, estudo ou tratado acerca das origens, desenvolvimento e significação deles; o conjunto dos mitos relacionados com um personagem, um fato, uma doutrina, um tema, etc.;
·  monadologia = doutrina de Leibniz – leibniziano - sobre as mônadas;
·  morfologia = tratado das formas que a matéria  pode tomar; o estudo da estrutura e formação de palavras;
·  muscologia = parte da botânica que estuda os musgos;
·  museologia = ciência que trata dos princípios de conservação e apresentação das obras de arte nos museus; museografia;
·  musicologia = ciência que trata dos assuntos musicais que não se referem propriamente à composição e à execução, tais, como, por exemplo, a investigação histórica, a acústica, a estética, a pedagogia, a rítmica e a métrica, as teorias harmônicas, a organologia, o folclore.
                Nos próximos números a continuação da relação das palavras com o radical LOGIA, a partir da letra N.


Questão   jurídica


Já foi dito que o “desenvolvimento é o novo nome da paz”... Já foi dito que “a paz é obra da justiça”.
Fico, aqui, pensando no artigo 5º da Constituição Federal do Brasil que garante os direitos de todos e a todos os brasileiros. Em todos os tempos e lugares, é bom questionarmos os nossos políticos acerca desses direitos e o que estão fazendo para garanti-los e o que faremos para que eles respeitem os nossos direitos.
Se todos são iguais perante a lei, por que só os pobres, negros, analfabetos são presos?
Ricos, brancos, intelectuais não descumpres as leis, não desobedecem às leis?
Se homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, por que muitas mulheres tendo a mesma profissão recebem, no final do mês, um salário menor?
Se ninguém deve ser submetido à tortura, nem tratamento desumano ou degradante, por que ainda alguns suspeitos de crimes apanham de agentes policiais, alguns pais espancam seus filhos, alguns homens destratam suas namoradas, suas esposas e até ex-esposas?
Se é inviolável a intimidade, a vida privada, por que as televisões insistem em explorar as crises, as angústias, as farras, os desvios de conduta, nos programas do tipo reality show?
Se todos têm direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, por que ainda muitos ainda não têm casa para morar, alimentos para se nutrirem, remédios para se curarem, escolas para estudarem, segurança de ir, de vir, de sair, de andar pelas ruas e avenidas?
Se a propriedade tem de atender a sua função social, por que não se faz uma reforma urbana? Em Uberaba, tem-se a notícia de que existem 200, 300, 400... lotes vagos no perímetro urbano no nome de um só proprietário em detrimento de muitos sem um pedaço de chão para sua casa.
Por que não se faz uma reforma agrária? Em Uberaba, tem-se a notícia de muitas terras ociosas à espera de valorização, ou serem arrendadas pelas usinas de cana.
Se a pena deve ser cumprida em estabelecimentos distintos de acordo com a natureza do delito, a idade e o sexo, por que todos os condenados ficam exprimidos, esmagados, empilhados em celas frias, imundas e frias?
Ninguém, em seu município, deve sentir-se jogado à própria sorte na existência, sentir-se desamparado, por que muitos ainda são tratados com descaso e despreza nas filas dos hospitais, dos órgãos públicos, dos bancos?
Por que muitos, através dos meios de comunicação, são levados a um estado em que a realidade lhes torna estranha e massificante e maçante e alienante?
Por que muitos se sentem desorientados diante dos desafios da própria existência?
Por que muitos se sentem isolados, com o pressentimento de que nada vai dar certo para eles?
Por que muitos se sentem desesperados, sem perspectivas para a sua e a vida dos seus familiares que passam por privações terríveis?
Por que ainda políticos pensam ter o direito e dever de controlar as escolhas e as opões e a vida das pessoas?
Por que ainda os políticos duvidam, desprezam as opiniões, as posições de outras pessoas, considerando-se infalíveis, deuses, donos da verdade?
Por que ainda muitos políticos não se obrigam a um dever moral que é o imperativo da ação, com responsabilidade e compromisso?
Por que a educação, a habitação decente, a previdência da saúde, oportunidades de empregos, a igualdade de oportunidade, sem fantasia e carros alegóricos e fogos de artifício e showmícios, mas concreta e realisticamente, não são propostas dos nossos políticos?
Será que podemos acionar o poder judiciário, exigindo dele, por exemplo, que cada um e todos tenham uma casa para morar, um hospital onde possam ser bem tratados, uma escola pública competente que realmente qualifiquem nossos filhos?
Em Uberlândia, um promotor fechou uma rodovia enquanto ela não tivesse condições de tráfego. O exemplo é bom! Devemos exigir mais dos poderes constituídos.


Questão   filosófica


Nada grande se faz sem sonhos e utopias, paixões e ideais. A paixão não se esgota e é individual, no sentido de ser um estilo de vida. Isso porque não há fórmulas, modelos, nem caminhos! “Faz-se o caminho, enquanto se caminha!” – diria o poeta.
As instituições foram criadas com o intuito de equilibrar as pulsões humanas, traduzidas por Freud como Eros e Tânatos, ou Vida e Morte, ou ainda Bem e Mal. O Eros é a vida e o bem. O Tânatos é a morte e o mal. Nada disso tem explicações ou razões. Emoções e razões se misturam fantasticamente em nós e para nós, isto é, para o nosso bem!
Nietzsche diz que quanto maior for a força de vontade, tanto mais liberdade damos às paixões. Tudo o que proporciona mais liberdade é mais tolerante e humano. No fundo, a paixão, a paixão, vista assim, quebra qualquer forma de apatia, de comodismo, de acomodação.
É preciso que se ensine como conviver com as paixões e os sonhos, com as utopias e liberdades. Nada de destruí-los! A destruição de tudo isso, talvez, seja o caminho mais fácil.
Não é preciso derrubar o prédio só porque há num apartamento um ninho de cupins. Não é preciso matar a vaca que está com carrapatos. Não é preciso arrancar o dente se cariado. Somos seres inventivos e criativos!
A paixão nos renova. Não é um mal que deva ser cortado pela ou na raiz. Conviver com ela é mais importante do que cortá-la. A saúde integral do ser humano inclui as emoções, os sonhos, as utopias, os desejos. Não há perfeição humana somente na racionalidade, na lógica, na dita “normalidade”.
Muitas vezes, paga-se um preço muito alto para se ser ou parecer normal. Guimarães Rosa nos perguntaria quem, afinal, é normal, quem não é doido. No fundo, tudo em nossa existência é questão de opção: ou seremos normais, não livres, escravos; ou seremos “doidos” felizes e livres.
Liberdade, felicidade e loucura se parecem muito e se confundem e se fundem fantasticamente dentro de nosso coração, dentro de nosso ser.
As tragédias gregas, depois as romanas, as shakespearianas, as modernas, sempre nos apresentaram e apresentam as paixões, os medos, as raivas, os ódios como algo indomável, fora de controle, mais forte do que qualquer forma de controle.
A eternização dessas tragédias persiste exatamente porque tudo realmente está fora do nosso controle absoluto. Julgamo-nos poderosos, donos de tudo, controladores de tudo, mas a eternidade está fora de nosso controle porque nas batidas do coração, no movimento do diafragma, no trabalho ardiloso e silencioso de cada célula. Nosso coração, no fundo, bate independentemente de nossa vontade. Nós estamos sob seu jugo.


Questão   ociosa

Quando a gente fica à toa, percebe muitas coisas não percebidas antes. É bom ficar sem fazer nada. É bom ouvir as músicas, andar de bicicleta, ver os filmes, fazer churrasco com os amigos, ler bobagens, tropeçar nas pedras dos passeios, beber um pouco mais cerveja, contar as estrelas à noite, brincar com elefantes e rinocerontes no Parque das Acácias, jogar paciência no computador, pisar pregos enferrujados, subir em árvores em busca de macacos na Mata do Ipê, fazer uma barragem nas enxurradas das ruas, roubar goiaba na casa do vizinho...
À toa, sem fazer nada, percebi o quanto o tempo voa e o tanto que somos escravos dele. Passamos por cima das pessoas e das coisas sem nos darmos conta da velocidade alucinada do tempo. 
Á toa, li um artigo sobre a Holanda. Achei-o simplesmente fantástico! Numa fábrica com dois mil funcionários, praticamente todos vão de carro para o trabalho. Um estacionamento imenso! Os primeiros que vão chegando, sem que ninguém tenha combinado, colocam os seus carros o mais distante possível da entrada.
O jornalista que fez o texto ficou intrigado com essa atitude. Pergunta a um se havia um local pré-estabelecido para se colocar o automóvel. Pergunta a tantos outros, pergunta a muitos. Todos lhe dão a mesma resposta: NÃO! NÃO HÁ VAGAS GARANTIDAS! Com esses NÃOS, mais intrigado fica. Então, por que será que param o carro tão longe? Começa a pesquisar e descobre que os primeiros a chegarem, estacionam o mais longe possível para fazerem uma pequena caminhada, bem devagar até a entrada e, no trajeto, encontram-se uns com outros colegas e seguem conversando serenamente.                
Ainda não satisfeito, continua a pesquisa e mais surpreso fica. Descobre que os primeiros colocam longe seus carros, porque têm tempo para caminhar e deixam os lugares mais próximos da entrada para os que, por algum motivo, estejam atrasados. Isso é consciência social e coletiva!
À toa, sem fazer nada, fiquei com inveja desses trabalhadores holandeses! Percebi o quanto desperdiçamos, ou não aproveitamos o tempo, por exemplo, conversando com um colega de trabalho. Achamos isso, infelizemente uma perda de tempo.
À toa, sem fazer nada, percebi, por exemplo, que 30% de materiais de construção viram entulhos, jogados nas caçambas, que atrapalham o tráfego de automóveis, quando não são colocadas nas calçadas, atrapalhando os pedestres. Depois, essas caçambas jogam os entulhos ali, acolá, aquém, além...
À toa, sem fazer nada, percebi que, por exemplo, 20% de soja, milho, cana... que, numa distância de 100 quilômetros, vão caindo nas estradas esburacadas, muitas delas intransitáveis.
À toa, sem fazer nada, percebi, por exemplo, que até 20% de alimentos são jogados fora, em sacos plásticos, e recolhidos pelos caminhões-lixeiros. A produção de lixo, em Uberaba, no Brasil, é impressionante. Em Porto Alegre, há uma estatística: cada habitante produz dois quilos de lixo por dia.
Dizem que em Uberaba produzimos mais de três quilos de lixo por habitante. O Brasil, no mundo (isso é bom!) é o primeiro país de reciclagem, isto é, é o país que mais reaproveita materiais, entulhos e lixo. O desperdício, conforme principalmente os ambientalistas, é conseqüência da ganância, do desvairado consumo imposto pelo diabólico mercado.
À toa, sem fazer nada, percebi o descaso dos políticos pelo povo e as desculpas “históricas” do descaso. Do governo federal ao municipal, todos falam de uma herança maldita. Aí, fico com os meus botões, pensando: será que todos somos o que somos, porque herdamos um gene, ou um cromossomo, ou uma célula, ou um corpo, ou uma humanidade, acostumados a reclamar, acostumados a não fazer nada, acostumados a não assumir faltas e erros...
Lembrei-me até da história de Adão e Eva. Depois do “pecado”, Deus questiona Adão sobre o que fez. E ele, na maior cara de pau, fala que foi induzido e seduzido por Eva. Em sua infinita sabedoria, Deus chama e questiona Eva sobre o que fez. E ela, na maior pouca vergonha, fala que foi provocada e excitada pela serpente, pela víbora, pela serpente, pela cobra. Daí, Deus “cria” o inferno e joga a serpente nele. Assim, por herança adâmica, fazem os políticos e fazemos todos nós. Lula, em oito anos de governo, reclamou de seus antecessores. Encheu o saco! E quais suas propostas dos políticos?
À toa, sem fazer nada, ouvi dizer que caiu, segundo o governo, o desemprego para apenas um dígito – recorde histórico nacional – e caiu a ponte da Régis Bittencourt e caiu o morro em Petrópolis!
À toa, sem fazer nada, ouvi dizer que aumentou o fluxo comercial e do caixa, e aumentaram os buracos nas rodovias, as filas nos hospitais e nas escolas. A tributação está muito maior e nenhuma sala de aula foi aberta, nenhum leito a mais nos hospitais...
À toa, sem fazer nada, percebi que o grande culpado de tudo isso é Deus que fez o homem! “Se Deus quiser” – “Deus é que sabe” – “Com a graça de Deus” – “Não cai uma folha da árvore sem que seja vontade de Deus”... Em período de chuvas, todos os prefeitos culpam São Pedro! Coitado de São Pedro! E o homem cria Deus à sua imagem e semelhança!


Questão   exemplar

O narcisista é um doente. “Odeio tudo que não é espelho!” – “Acho feio tudo que não seja espelho!” Imaginemos um narcisista no poder. Um prefeito narcisista só ouve os ecos e os apelos de sua própria voz. Não sabe ouvir. É incapaz de ouvir pedidos de socorro de crianças, de mulheres, de idosos, dos doentes, dos deficientes, do povo. Um narcisista deve procurar uma clínica de psicanálise e não uma prefeitura. Existem narcisos também dirigindo, gerenciando, gerindo em todos os cantos, nas escolas, nas empresas, nas religiões...
As escolas condicionam comportamentos e pouco desenvolvem as potencialidades de seus alunos e professores. Homem escolarizado é um ser domado, adestrado, condicionado, preparado, domesticado, obediente, submisso, cordeirinho levado para o matadouro.
Por natureza, o homem nasce com muitos sonhos e utopias, mas as instituições, em geral, as escolas e as leis, as religiões e as famílias existem para pisar o freio das emoções e paixões. Sem essas instituições, os homens jamais deixariam de sonhar, de desejar, de apaixonar por todos os seres e coisas existentes. Afinal, tudo nos é passível: de relações amorosas, até odiosas.
Aníbal Machado, um dos grandes contadores de histórias da literatura brasileira, escritor de “A Morte da Porta-estandarte” – “Tati, a Garota” – e outras histórias, usa a linguagem com muita ousadia e prazer. A ousadia o faz correr risco. O prazer o faz artista da palavra – condição fundamental do ser humano. Na verdade, usa uma linguagem artesanalmente construída.
Gosta das metáforas chegando ao limite de um contador de fábulas. Sua sensibilidade e ironia marcam o seu discurso. Fala através de seus personagens, principalmente “usando” as crianças. Como criança, dá vida a muitos elementos da natureza, conversa com eles.
Cavalcanti Proença, em relação a Aníbal Machado, nos afirma: “Homem de seu tempo, tinha a consciência de que a arte não é a pura expressão de uma desordenada fantasia, nem apenas, o reflexo de conceitos intelectuais, mas o esforço criador da interação de ambos”.
Assim, sensibilidade e razão, misturadas, nos impõem um balanço da própria vida. Nada, nenhuma palavra, para Aníbal Machado, existe por ocaso. Tudo é selecionado, escolhido, construído, mudando inclusive os significados originais das palavras. Aníbal Machado semeou, semeou, semeou...


Questão   populacional

Em 1830, existia no mundo um bilhão de habitantes. Em 1927, já éramos dois bilhões. Em 1960, chegamos a três bilhões. Em 1974, quatro bilhões. Em 1987, pulamos para cinco bilhões. Em 1999, ultrapassamos os seis bilhões de habitantes. A ONU prevê que, em 2015, seremos oito bilhões. Outras organizações vêem um número maior ainda.
O interessante é perceber que para cada bilhão de pessoas gasta-se muito menos tempo. (Façam as contas!). Esses dados, acredito, assustam a todos, não porque não cabe na terra esse mundaréu de gente, mas o assombro e o susto, a angústia e as incertezas em relação ao futuro nascem de tantos outros dados que passamos a analisar, a pensar, a imaginar.
Quanto maior o número de habitantes, menor o número de pessoas que detêm a posse de riquezas, de terras, de poder. Hoje, as 225 pessoas mais ricas do mundo têm a mesma riqueza de 3.000.000.000 – três bilhões – de pessoas mais pobres. Que loucura! 225 X 3.000.000.000! E essa tendência de concentração de riqueza, via neoliberalismo, deve acentuar-se ainda mais, conforme analistas e o próprio Banco Mundial.
A destruição indiscriminada da natureza, a exaustão dos recursos naturais não-renováveis, a avidez com que se domina a todos e a tudo, estão levando o planeta a um aquecimento avassalador e nunca previsto.
A ONU prevê um aquecimento de dois graus antes do ano 2.099, antes da virada de um novo século. Mas, o que são dois graus apenas?!
Os resultados e/ou efeitos serão catastróficos e/ou apocalípticos: secas insuportáveis; desertificação incontrolável; para cada grau a mais, os oceanos se elevam um metro; inundação e desaparecimento de muitas ilhas; inundação de todas as áreas de praias onde se concentram 40% da população mundial; enchentes e chuvas destruidoras... Além, é claro, já conhecemos as catástrofes no Haiti, no Chile, no Japão.
Muitas convenções estão sendo realizadas no mundo inteiro pelos chefes de Estado. As metas estabelecidas por essas convenções não são obrigatórias, são mais aconselhamentos: cumpre-as quem quiser, quando quiser, como quiser, se puder, se for de interesse de seu país. Que pena! Nem a ONU teria também como obrigar o seu cumprimento. A ONU só obriga guerras, invasões de países, intervenções nas nações e Estados Unidos, França, Canadá, Inglaterra, Itália... obedecem, como, agora, na Líbia.
Então, para que essas reuniões, essas convenções? E os protestos e resistências estão se alastrando pelo mundo. Que bom! É urgente inventar um novo modo de viver! De conviver! De sobreviver!
Por causa da mecanização intensiva da agricultura, por causa do avanço das fronteiras agropecuárias para viabilizar a exportação de soja e carne, as grandes cidades estão cada vez maiores e mais inchadas.
Entre 1960 e 1996 – 36 anos – a população das cidades brasileiras passou de 10 milhões para 93 milhões de pessoas. Essa explosão foi provocada pelo êxodo rural, ou pela expulsão do homem do campo.
Muitos vieram para as cidades e nas cidades, sem nenhuma infra-estrutura, sem escolas, sem hospitais, sem transporte coletivo, sem limpeza urbana, sem polícia, sem água, sem esgoto, explodem a miséria e a fome, a violência e a injustiça. É impossível administrar, por exemplo, uma cidade, como São Paulo, que tem um milhão de habitantes a mais por ano!
Dada a extensão territorial, por ser um país eminentemente tropical, é hora de se investir nas alternativas energéticas possíveis: energia da biomassa, energia solar, energia eólica, sem ficar amarrado ao petróleo – fonte esgotável!
Diante da situação privilegiada do Brasil, é possível que se pense que aqui o que falta é vergonha na cara, vontade de fazer. Existe, sim, é uma crise de gestão, de incompetência, de valores nacionais e humanos.
É absurdo se pensar que temos de comprar água engarrafada! A própria ANA – Agência Nacional de Águas – publicou recentemente que as bacias hidrográficas da Bahia ao Rio Grande do Sul estão comprometidas pelo esgoto urbano e industrial que não é tratado.
Com a situação assim tão crítica, ninguém poderia imaginar que morrem 24.000 pessoas, no mundo, de fome e desnutrição; um 1.200.000 de pessoas vivem com menos de um dólar por dia; são 800.000.000 de famintos à espera da morte; 250 pessoas mais ricas têm mais de um bilhão de dólares em ativos...
Globalizemos a solidariedade, hoje, agora, não porque sejamos bonzinhos, mas para a sobrevivência da própria humanidade!
 

Questão   sexual     

É fato inquestionável que as famílias, hoje, têm optado por um número menor de filhos – o que não significa maior saúde sexual, ou maior responsabilidade pela educação dos filhos, ou menos medos em relação ao futuro de todos.
É fato inquestionável também que os jovens estão cada vez mais vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis – DST – ao vírus da AIDS, `gravidez indesejada, à gravidez na adolescência.
É fato inquestionável ainda que poucos têm refletido, pensado, repensado sobre as questões relacionadas ao sexo seguro. Sexo seguro, aqui, significa usar camisinha que tem dupla finalidade: a contraconcepção e a proteção de muitas e terríveis doenças.
Existe um ditado muito popular que nos ensina: “Prevenir é melhor do que remediar!” Um soro positivo ainda, para a ciência, não tem salvação! O que há é uma sobrevida com muito pouca qualidade de vida à espera da morte. Uma gravidez indesejada, se interrompida traz ainda muito mais problemas!
Muitos professores professam que o melhor, que a única saída,  é a educação, é a tomada ou retomada da consciência, é a mudança de comportamentos, diante do outro e diante da vida.
Mudança de comportamento exige muito diálogo, muita conversa, muito papo e tempo. Diálogo, aqui, exige a troca de posições, de pontos de vista, exige abertura total e absoluta ao outro, aos desejos do outro – o que não é fácil!
Porque o ser humano nunca deve ser regido por normas, leis, dogmas, tratados, imposições e medos, mas pela vontade, pela  liberdade, pelo amor, não há outro caminho a não ser a informação que forma e formação que depois transforma.
A educação, principalmente a que se refere ao sexo, se baseia neste tripé: informar, formar e transformar, que também poderá ser entendido assim: informar é ver a realidade, formar é julgar a realidade e transformar é agir na realidade.
Informar/ver é não fugir dos problemas humanos, é entender inclusive a lógica latente do comportamento individual e coletivo, é sentir o outro em todas as suas dimensões...
Formar/julgar é estabelecer, escolher, optar por princípios, por valores humanos, individuais e coletivos, é até dizer não às ditas “tentações e pecados”, impostos pela mídia, pela sociedade consumista e capitalista voraz. Só é livre quem cria a possibilidade de dizer NÃO, de resistir!
Transformar/agir é mostrar-se e impor-se como indivíduo único, inédito, responsável, intransferível, insubstituível, irrepetível, dono de sua história e seu tempo, dono de sua geografia e de seu espaço; é construir-se, fazer-se, construindo o outro, na partilha e na liberdade, no amor e na ternura.
Esse é o maior desafio para a educação – processo de semeadura! A urgência da vida, muitas vezes, nos obriga a recuar no campo de guerra da prevenção, para acudir os feridos, os deixados à beira do caminho...
O processo educativo é lento e nós, professores e pais, queremos que tudo aconteça já, queremos colher os frutos já. Nós, porque ansiosos, queremos preparar a terra, adubá-la, lançar as sementes, ver nascer as plantas e flores, e depois ainda colher os frutos!
Se professores e pais conseguirmos, com calma e paciência, com firmeza e ternura, convencer as crianças e os adolescentes e os jovens de que para desfrutar, saborear, encantar-se com a vida, é preciso prevenção, já teremos cumprido nossa difícil missão!
Prevenção, aqui, tem um significado o mais aberto possível: prevenção contra os vícios e as drogas, prevenção contra as doenças e males do corpo, prevenção contra os acidentes ecológicos e do trânsito...
Prevenção assim tem a conotação de resistir: resistir aos apelos do consumo desvairado, do comércio e da mídia, resistir aos apelos da desonestidade e mediocridade de muitos, resistir aos devaneios gananciosos e corruptos de muitos candidatos a cargos públicos...
A ordem é resistir para prevenir e prevenir para resistir! E viva a vida!


Questão   onírica

Vivemos situações conflitantes e contraditórias, contrastantes e incoerentes: fala-se de desarmamento e nunca se viu na história da humanidade tanto descontrole da corrida armamentista.
Fala-se de miséria e fome e nunca se viu tanto desperdício e produção de lixo.
Fala-se do bem e invadem-se outros países para continuar o controle sobre os dominados, impondo-lhe a hegemonia.
Fala-se da verdade e nunca se mentiu tanto, usando o marketing cada vez mais enganoso, criador das necessidades e soluções de consumo.
Fala-se de justiça e nunca se viram tantas injustiças, cometendo crimes contra raça, religião, sexo, poder aquisitivo.
Fala-se de piedade e nunca se viu tanta crueldade, agressividade, violência nas relações humanas.
Fala-se de lealdade e nunca se viu tanta traição, golpes baixos, desonestidade, falcatruas, roubos e assaltos.
Fala-se de ética e nunca se esteve tão servil, tão escravo, tão oprimido, tão excluído, tão humilhado, tão jogado às traças, tão cagado no mundo.
Fala-se de amor e nunca se experimentou tanto desprezo, tantos desdéns, tantas intrigas, tantas separações e tanta intolerância.
O ideal é um saco sem fundo, da mesma forma que os sonhos de consumo dos capitalistas que nunca se satisfazem com o ter. A diferença é que o ideal tem raízes no ser: ser-mais e ser-melhor.
A realidade até oferece algumas satisfações. Os medíocres, os realistas, os vulgares, os frívolos, os levianos, os ignorantes... se satisfazem com o pouco, ou até com as migalhas caídas da mesa farta dos maiorais.
Sem ideal não há evolução humana, sem seria explicado o estádio onde está a humanidade hoje.
Uma utopia é uma ruptura! A revolução processa a ruptura. A revolução das ideias e mentalidades, da consciência e convivência, é tão urgente quanto o ar que respiramos.
Esse sufoco em que vivemos asfixia as famílias, as pessoas, a todos. Não há ainda movimentos sociais organizados que possam articular e estimular as utopias, os sonhos e as revoluções.
Urge, no mínimo, uma pequena mudança que estanque essa sacana concentração de riquezas, de bens, antes que seja tarde!
Os economistas afirmam que a cada 0,25% a mais nas taxas de juros, tiram-se, transferem-se para os bancos 900 milhões de reais dos brasileiros. Isso não é democracia. Não há democracia quando só os bancos lucram e lucram muito!
O ideal impulsiona e pressiona o desenvolvimento. A praticidade, o cotidiano, o dia-a-dia matam o ideal, porque estamos presos às contingências do presente.
Estar preso ao presente é renunciar a perfeição e a possibilidade de aperfeiçoamento. O cotidiano não cria nada para o futuro.
O ideal é e sempre será a parte viva e dinâmica, contínua e infinita da humanidade. Sem ideal, os homens vegetam, se animalizam, se coisificam. O ideal último é alcançado pela sucessão de muitos ideais.


Questão   econômica

O currículo sempre foi e é visto como uma espécie de filtro por onde as matérias e os cursos se petrificam hierarquicamente: cursos nobres e não-nobres; disciplinas básicas e profissionalizantes; professores titulares e não titulados; estudantes aptos e não aptos... O poder do currículo é sempre seletivo e porque seletivo, discriminatório.
Muitas pesquisas de opinião são feitas pelo Brasil inteiro para aferir o que leva as pessoas as fazerem um curso superior. Os resultados não mudam: “possibilidade de conseguir maior renda na profissão escolhida.” Isso é motivação econômica. Isso é promessa do céu depois da morte e as universidades, o purgatório.
O interessante é que a motivação econômica leva as pessoas mais pobres e necessitadas, incoerentemente, para os cursos de menor prestígio, para os cursos ditos não-nobres.
Incoerência? Claro, ascensão social e econômica deveria motivar as pessoas para fazerem cursos nobres, de maior remuneração. Os cursos nobres ainda não são feitos por pobres e para os pobres. É preciso desescolarizar a sociedade! A escolarização confirma, ratifica, demonstra a sociedade dividida.
Pessoas menos aquinhoadas economicamente, porque desejam aumentar sua renda e status, escolhem cursos de menor seletividade, portanto os não-nobres que também levam as pessoas a carreiras menos compensadoras.
Nesse sentido, a escola é uma desgraça! Nossa proposta é revolucionária, porque libertária. A oferta de empregos, no Brasil, depende muito mais da experiência profissional do que os anos de escolarização!
O primeiro emprego é sempre oferecido às pessoas ainda bem jovens, portanto de pouca escolarização. A experiência profissional, sim, produz maiores salários, ou aumento de salários, ou de renda. Imaginemos um estudante, com 30 anos, com todos os títulos de graduação e pós-graduação, mestrado e doutorado, em busca de um primeiro emprego. “Já está velho!” Se não trabalhou até hoje, não presta!” Aí, vai ser professor! Seus títulos, por causa das exigências do MEC, lhe garantirão um emprego em universidades. Que inferno! Trem do capeta!
A Universidade da libertação, ou a revolução escolar, aberta, sem seleção, propõe uma rede de atividades, escolhida pelos estudantes e orientada por um magister, tendo empregados buscando a universidade por prazer e por interesse, para o seu desenvolvimento pessoal e profissional.
A revolução valoriza a figura do professor, responsável por “seu” curso. Essa valorização inclui ganhos financeiros. A revolução valoriza a figura dos estudantes, responsáveis por “seu” destino. Essa valorização inclui ganhos financeiros.
Escola não pode ser a confirmação da pobreza e da miséria, da frustração e do insucesso! “Eu pago a minha frustração!” Escola não pode ser a firma reconhecida da estratificação social.
A escola, como centro, como espaço de produção de conhecimento e de reflexão crítica tem um papel importante na revolução, na superação dos grandes problemas sociais e na remoção das amarras, das algemas, dos freios que impedem a construção de uma sociedade mais igualitária e de melhor qualidade de vida.
A questão mais importante é a superação do subdesenvolvimento do Brasil – o que não significa aumentar a número das escolas.
Uma sociedade desenvolvida é uma sociedade feliz, ou com todas as possibilidades de se ser feliz. O crescimento econômico não garante a felicidade das pessoas. Somos 5ª ou 6ª economia e estamos 73º lugar do Índice de Desenvolvimento Humano.
Somos o penúltimo país em concentração e divisão de renda e de bens. Estamos perdendo para países considerados inferiores ao nosso e uma das razões, sem dúvida, é a má qualidade das nossas escolas.
As universidades têm muito a aprender com muitas organizações civis, instituições populares, cooperativas... As cooperativas de catadores de papel, de Belo Horizonte, têm muito a nos ensinar!
Aliás, a palavra “cooperativa” é um tema proibido nas universidades que estão preocupadas com a burguesia, com os capitalistas, com os exploradores, com os lucristas, com os detentores de bens e das riquezas.
Os exemplos de cooperativas de sucesso, com raras exceções, são formadas de pessoas pouco escolarizadas, pouco tituladas, pouco academizadas.
Muitas palavras, como solidariedade, companheirismo, ternura, amizade, amor, cooperação, fé, tradição, valores, princípios, ética... são proibidas nos corredores das universidades, mais preocupadas em manter as coisas como estão, incentivando a discriminação, a competição, o sucesso, a fama, o dinheiro, o consumo desvairado! Quanta mediocridade!
Uma universidade tem de ser um espaço de encontros de gente, de muita gente, de todas as idades, cores, matizes, sons e tons. Autonomia é isso! Cidadania é isso! Na era da informática, o gerenciamento, hoje, de muitas cooperativas, associações é muitíssimo simples.
Todos temos o direito de escolher o que é melhor para nós mesmos. Ninguém é, por direito, a mora onde mora; casar-se com quem se casou; fazer o que faz; ser católico, ser pai, ser mãe... Por que, então, nas universidades, tudo nos é imposto? Impõem a todos um horário, uma disciplina, um conhecimento, um currículo, um professor, um tempo determinado, pré-requisitos, uma ordem, uma organização e uma estrutura organizacional.
A possibilidade de o estudante escolher o que quer estudar, quando estudar, por que estudar, para que estudar, quem lhe será o professor, quem lhe serão os colegas... abre a perspectiva de se estar em contato com a humanidade, com os sonhos e com as utopias e com os ideais de tantas pessoas.
Nessa perspectiva, a universidade será de todos, para todos, com todos, por todos.
Um encontro de pessoas é tão precioso porque, além de tantos benefícios individuais e coletivos, cria a possibilidade de nascimento de muitos líderes – o que nos falta.
Nós, todos nós, precisamos de líderes! De muitos líderes!
Grosso modo, o líder é “o que chora com os que choram e ri com os que riem!” líder é o que está! Isso é solidariedade! Isso é cumplicidade! Solidariedade e cumplicidade nos conduzem à libertação!
Uma universidade não precisa de diretor de curso. Precisa de um orientador de ciência e um orientador de profissões. Ciência é diferente de profissão. Muitos querem saber, pelo prazer de saber e não para exercer uma profissão.
Imaginemos, por exemplo, um curso de Célula-Tronco – só para se estar na onda! O que é, para que serve, como poderá se utilizada para o bem de todos, a bioética...
E assim poderia ser criada uma infinidade de cursos só para o conhecimento e não para se exercer uma profissão. Uma universidade como todas as escolas têm de trabalhar sempre com uma visão profética, ajudando a cada um a encontrar o “seu” caminho que o levará ao que quer, deseja, sonha. 
Só a título de esclarecimento e para nossa compreensão: a palavra “escola” tem origem da língua grega “schole” que significa lazer, prazer, encontro. Nesse sentido, a escola não é o espaço de frustração, de solidão, de desgosto, de choro e lágrimas, de obediência e cegueira.


Questão   franciscana

Senhor,
Fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais
Consolar que ser consolado.
Compreender que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se vive para a vida eterna.