terça-feira, 23 de agosto de 2011

questão - 10

AFA
ACADEMIa FRANCISCO DE Assis

questão
2011 – 10ª edição

Nesta décima edição – ufa! – vamos levantar problemas ligados, principalmente à ecologia. As possíveis soluções dos problemas sabemos não são fáceis, porque dependem de atitudes e comportamentos individuais, coletivos, políticos, existenciais, internacionais. Alguns especialistas afirmam que existem várias ecologias, ou consciências ecológicas: Ecologia existencial: cada um se cuida, evitando uso de drogas (bebidas, cigarros, maconha...), buscando melhores alimentos, procurando e impondo a si mesmo um ritmo de vida tranqüilo (horas de trabalho, de descanso, de lazer...); Ecologia urbana ou social: como as sociedades se articulam em relação ao seu próprio funcionamento, garantindo a todos direitos fundamentais (alimentos, moradia, saneamento básico...); Ecologia natural: a necessidade de preservação do ambiente natural como condição para a sobrevivência humana, analisando e pesquisando tecnologias que garantam um desenvolvimento sustentável; Ecologia cósmica: o planeta Terra, frágil, doente faz parte de um todo maior, um componente de um sistema solar, que forma uma galáxia, que forma o universo. Há uma interdependência dos astros. Alguns astrofísicos e ambientais entendem que uma visão macro se assemelha a uma visão micro. Um astro equivale a uma célula viva num organismo. Curar uma célula é tão importante quanto cuidar de um planeta. Outros estudam a sinergia das células, dos órgãos, dos organismos, dos astros. Sinergia significa abrir mão de sua função para a salvação de um outro. No corpo, as células cardíacas, nervosas, epiteliais abrem mão do que nasceram para fazer e apóiam e ajudam outras células, por exemplo, na cura de uma doença. Não é questão de as células serem boazinhas. É questão de sobrevivência! Há muitos exercícios e oficinas de sinergia nas escolas e nas empresas para a sobrevivência das empresas e das escolas. São exercícios de convivência e de tolerância. São oficinas de trocas de experiências e de vivências para a sobrevivência das pessoas.
Décio Bragança Silva
asfapaz.blogspot.com


Questão   ecológica

      A Campanha da Fraternidade, deste ano, promovida pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – trouxe novamente para a discussão da sociedade o tema: ecologia. Trocando em miúdos, podemos entender o tema como um grito de alerta do planeta Terra, um pedido de socorro, uma exigência de cuidados que devemos com a Mãe-Natureza.
      Comecemos com a letra do Hino da Campanha da Fraternidade:
               
      Olha, meu povo, este planeta Terra:
      Das criaturas todas, a mais bela!
      Eu a plasmei como todo amor materno,
      Pra ser um berço de aconchego e vida.

                      Nossa mãe terra, Senhor,
                      Geme de dor noite e dia.
                      Será de parto essa dor?
                      Ou simplesmente agonia!?
                      Vai depender só de nós!
                      Vai depender só de nós!

A Terra é mãe, é criatura viva:
Também respira, se alimenta e sofre,
É de respeito que ela mais precisa!
Sem teu cuidado ela agoniza e morre. 

Vê, nesta terra, os teus irmãos, são tantos...
      Que a fome mata e a miséria humilha.
      Eu sonho ver um mundo mais humano,
      Sem tanto lucro e muito mais partilha!
               
      Olha as florestas: pulmão verde e forte!
      Sente esse ar que te entreguei tão puro...
      Agora, gases disseminam morte;
      O aquecimento queima o teu futuro.

      Contempla os rios que agonizam tristes.
      Não te incomoda poluir assim?
      Vê: tanta espécie já não mais existe!
      Por mais cuidado implora esse jardim!

      A humanidade anseia nova terra.
      De dores geme toda a criação.
      Transforma em páscoa as dores dessa espera,
      Quero essa terra em plena gestação!

      A intenção, hoje, é só fazer um levantamento de conceitos, de dados, de números do nosso planeta Terra, que, de uma certa maneira, está pedindo socorro, que está exigindo cuidados, apesar de sua capacidade de regeneração, de reconstrução.
      O nosso planeta abriga inúmeras formas de vida animal e vegetal que formam a chamada biodiversidade. A vida humana depende fundamentalmente dessa biodiversidade que formam os ecossistemas – a interdependência entre os fatores físicos, atmosfera, seres vivos, solo, água, com o meio ambiente, a relação das comunidades bióticas com os elementos abióticos.
      As comunidades bióticas são as plantas, os animais e os decompositores + os elementos abióticos são os nutrientes, água, gases, energia, substâncias orgânicas e inorgânicas = ciclo vital em equilíbrio.
      A classificação dos seres vivos foi praticamente criada por Carl Lineu, em 1735. Na época, os seres vivos eram classificados em animais e vegetais. Hoje, os biólogos reconhecem seis reinos: o Reino das Moneras – o Reino das Archaebactérias – o Reino dos Protistas – o Reino dos Fungos – o Reino das Plantas e o Reino dos Animais.
      Cada reino é dividido em filo, que é dividido em classe, que é dividida em ordem, que é dividida em família, que é dividida em gênero, que é dividido em espécie. Assim: reino > filo > classe > ordem > família > gênero > espécie.
      Usando essa terminologia, classifiquemos o homem:

REINO = animal; FILO = dos cordatos, com eixo de sustentação interna; SUBFILO = dos vertebrados, com coluna vertebral;  CLASSE = dos mamíferos; ORDEM = dos primatas; com cérebro desenvolvido, com unhas em vez de casco; FAMÍLIA = dos hominídeos, eretos e caninos pequenos; GÊNERO = homo, com domínio da linguagem e desenvolvimento da cultura; ESPÉCIE = sapiens.

      O conjunto de todos e de todos os seres vivos é chamado de BIOTA. Os ecossistemas se interagem, se completam, se misturam, sinergicamente para a própria sobrevivência. Quando se fala em habitat, está-se falando em condições favoráveis à sobrevivência, ao desenvolvimento e à reprodução de cada espécie. Assim, cada espécie tem o seu habitat. Um urso polar não tem condições de sobrevivência numa zona tropical. Isso significa que o habitat também tem de ser preservado e cuidado pelos homens.
      A biodiversidade é responsável pela evolução e manutenção da vida nos ecossistemas. Os homens ou as atividades humanas estão reduzindo a biodiversidade e criando uma preocupação de toda humanidade, porque sabemos que é possível ampliar a biodiversidade. Depende fundamentalmente de vontade, ou boa vontade, ou ainda vontade política das nações, para o bem de todos os homens e de cada um, para sua qualidade de vida e até para o seu lazer.
      Os ambientalistas dizem que há mais de 50 milhões de espécies vivas. Os cientistas acreditam que haja mais de 14 milhões de espécies vivas no planeta, mas só foram catalogadas, até hoje, 1.700.000 – um milhão e setecentas mil – espécies de seres vivos – todos com sua característica, especificidade e função. Esses seres não estão distribuídos igualmente no planeta, claro.
      A vida é mais abundante onde há mais luz solar, água doce e clima estável. Mais de 90% dos seres vivos habitam nas florestas tropicais que ocupam apenas 7% do planeta. Daí, a importância da Floresta Amazônica para o mundo. Daí, a urgência de se preservar todas as florestas tropicais do mundo. Só no Brasil já foram catalogadas mais de 50 mil espécies vegetais. 
      A grandeza, a grandiosidade dos números, nos deixa boquiabertos. Às vezes, brinco dizendo: “Quão maravilhoso é imaginar que tudo isso estava no útero de Deus, que pariu a vida e a vida em abundância!” 
      Os animais são seres multicelulares, que se locomovem e são incapazes de produzir o próprio alimento e por isso se alimentam comendo outros seres vivos, formando a conhecida cadeia alimentar. Os pesquisadores com finalidade didática apenas – facilitação do entendimento –dividem os animais em dois grupos:
·  Vertebrados – com uma coluna vertebral que são os anfíbios, mamíferos, aves, peixes e répteis;
·  Invertebrados – sem coluna vertebral, que são anelídeos (minhoca), artrópodes (aracnídeos, crustáceos, insetos), celenterados (anêmonas), equinodermos (estrela-do-mar), esponjas, moluscos (polvo), nematelmintos (lombriga), platelmintos (tênia).
Os vegetais, que transformam compostos inorgânicos em matéria orgânica, por força da fotossíntese, são a base da cadeia alimentar e da vida no planeta. A vegetação cobre grande parte do solo terrestre. São estepes, pampas, pradaria, savanas, cerrados, caatingas, tundras... Entre os dois trópicos a vegetação é mais intensa e mais variada. Quanto mais próxima dos pólos, sem a luz solar com tanta intensidade, a vegetação é menos densa e menos variada.
A transferência de matéria e principalmente de energia de um ser para outro ser, via alimentos, é chamada de cadeia alimentar – ciclo biogeoquímico responsável pelo equilíbrio e reprodução dos ecossistemas.
Em outras palavras, cada ser exerce sua função específica no complexo da vida. As plantas verdes são grandes e primeiros produtores de energia que sustenta os organismos consumidores, animais e fungos, incapazes de produzirem o próprio alimento – consumidores primários que, posteriormente serão fonte de energia e alimentos para os carnívoros – predadores – consumidores secundários. Os dejetos dos animais ao caírem no solo são transformados em matéria inorgânica para que os vegetais novamente transformem matéria inorgânica em orgânica, realimentando o ciclo da vida, comprovando a lei de Lavoisier: “Nada se perde, tudo se transforma!”
A harmonia e o equilíbrio, claro, dependem fundamentalmente de que cada etapa seja seguida à risca. Quebrar a cadeia alimentar poderá ser um grande desastre para o planeta, para a vida no planeta.
Por isso, de vez em quando, vemos nas cidades invasão de gafanhotos, de grilos, de rolinhas, de pernilongos, de baratas, de ratos, de escorpiões, até de jacarés, tamanduás, veados, cobras atravessando rodovias. A cadeia alimentar foi quebrada em algum momento. Sem predadores esses animais saem “pelo mundo” à procura de alimentos. 
Só para termos a dimensão do estrago que provocamos na terra, vamos a alguns números importantes e preocupantes, comparando a cobertura vegetal há 8 mil anos e hoje, publicados no Almanaque Abril – 2010, na página 200.


Na África, havia 6.799.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 10,6% de todo o planeta;
·  hoje são 527.000 – o que corresponde a 3,4% de todo o planeta, com uma redução de 92,2% de suas florestas;
Na Ásia, havia 15.132.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 23,6% de todo o planeta;
·  hoje, são 844.000 – o que corresponde a 5,5% de todo o planeta, com uma redução de 94,4% de suas florestas;
Na América do Norte, havia 10.877.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 16,9% de todo o planeta;
·  hoje, são 3.737.000 – o que corresponde a 24,2% de todo o planeta, com uma redução de 65,6% de suas florestas;
Na América Central, havia 1.799.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 2,8% de todo o planeta;
·  hoje, são 172.000 – o que corresponde a 1,1% de todo o planeta, com uma redução de 90,3% de suas florestas;
Na América do Sul, havia 11.709.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 18,2% de todo o planeta;

·  hoje, são 6.412.000 – o que corresponde a 41,4% de todo o planeta, com uma redução de 45,2% de suas florestas;
Na Europa (sem a Rússia), havia 4.690.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 7,3% de todo o planeta;  
·  hoje, são 14.000 – o que corresponde a 0,1% de todo o planeta, com uma redução de 99,7% de suas florestas;
Na Rússia, havia 11.759.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 18,3% de todo o planeta;
·  hoje, são 3.448.000 – o que corresponde a 22,3% de todo o planeta, com uma redução de 70,7% de suas florestas;
Na Oceania, havia 1.431.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia 2,2% de todo o planeta;
·  hoje, são 319.000 – o que corresponde a 2,1% de todo o planeta, com uma redução de 77,7% de suas florestas;
No Brasil, havia 6.304.000 quilômetros quadrados de florestas originais – o que correspondia a 9,8% de todo o planeta;
·  hoje, são 4.378.000 – o que corresponde a 28,3% de todo o planeta, com uma redução de 30,6% de suas florestas;
No MUNDO, havia 64.176.000 quilômetros quadrados de florestas originais;
·  hoje, são 15.473.000, com uma redução de 75,9%  de suas florestas.


Não analisar os dados, mas fazer apenas uma observação, uma vista de olhos: a Europa foi o continente que mais reduziu suas florestas – 99,7%; o Brasil é o país que menos reduziu suas florestas – 30,6% - abaixo da metade da média mundial que é de 75,9%; quase um terço das florestas do mundo – 28,3% - está no Brasil. E não ganhamos nada por isso, mas o mundo ganha, mas as pessoas do mundo ganham, claro.
Não se trata tão somente de um estudo sobre o meio ambiente, mas de podermos aprofundar nos problemas sociais, políticos, econômicos, religiosos, a partir do estudo da ecologia. Tudo o que fazemos à terra, fazemos aos seres humanos – parte do planeta, e não de tudo e de todos. Aquele “dominai” bíblico foi levado muito a sério. Por que não levamos a sério o “amai-vos uns aos outros” – também bíblico?
A qualidade de vida das pessoas depende do que estamos fazendo com o meio ambiente. Tudo no planeta está correndo risco de dilapidação e deteriorização. Não se trata de apocalipse, mas entendermos que nunca é tarde para levarmos a vida mais seria e dignamente, agora e amanhã, aqui e ali.
Não gosto do argumento de que a natureza vinga, de que a natureza é vingativa. Tudo o que está acontecendo são conseqüências de nossas opções, de nossos descaminhos, de nossos desvios de rota. Ah! Chernobyl! Ah! Goiânia, com o césio! Ah! Japão, com o vazamento de material radioativo! Ah! Chile, com seus maremotos e terremotos! Ah! Petrópolis com suas enchentes e desmoronamentos!
Defender o meio ambiente é defender a vida. Três décadas atrás, os ambientalistas eram considerados loucos, românticos, utópicos, sonhadores e profetas do apocalipse. Hoje, é uma preocupação de todos. Não se trata de defender baleias ou jacarés, mas defender a vida no sentido planetária, global. É a luta pela sobrevivência do próprio homem.
São tantos problemas que seria impossível listá-los, mas muitos alimentos está contaminados e envenenados, além dos resíduos de agrotóxicos; a falta de segurança nuclear, deixando populações sem planos de emergência, sem pesquisas dos efeitos biológicos da radiação; o armazenamento, o transporte e manipulação de produtos perigosos não são levados a sério; o modelo de desenvolvimento escolhido; a dominação tecnológica; além, é claro, do efeito-estufa, do aquecimento global, do colapso da cadeia alimentar, dos buracos na camada de ozônio, da extinção de muitos seres.
São problemas de grande complexidade e tantos outros ainda não foram detectados como o problema dos clones, dos transgênicos, das células embrionárias, das células tronco... Uma usina nuclear tem sua vida útil de 30 anos, mas produz o lixo atômico que dura 40 mil anos. Uma usina nuclear produz em média 35 toneladas de lixo atômico. E o que fazer com esse lixo? Será que não há alternativas de produção de energia? E a obsolescência? Com o avanço de novas tecnologias, o que é bom hoje, amanhã não serve mais. Vejamos os exemplos de computadores, celulares.
Para os românticos, a Terra vista do céu é um planeta azul-esverdeado. Belíssimo! Para os astrofísicos, a Terra é um planeta muito pequeno, doente, solitário, frágil, vulnerável. E imaginar que o “rei da Criação” – o homem, feito à Imagem e Semelhança de Deus – habite um planeta assim – uma partícula do universo – era inconcebível há cinco séculos. 
Consumimos mais oxigênio do que é produzido – e isso é problema sério.  A camada de ozônio está diminuindo globalmente. O principal agente dessa diminuição é o CFC – clorofluorcarbono. O progresso têm dessas coisas: sprays, geladeiras, ar condicionado...a verdade é que o planeta precisa sobreviver para que o homem continue a existir. Por isso os estudos do meio ambiente são chamados hoje de Ciência da vida e Ciência da Sobrevivência.
A Ecologia lança mãos de outros conheci mentos, de outras ciências para constituir-se como ciência: biologia, etologia, matemática, química, física, geologia, meteorologia, informática, antropologia, sociologia... Isso para mostrar a complexidade de estudos da Ecologia. Dizem os estudiosos que é fácil ter-se o conhecimento para se construir um joguete que sai da Terra e vai a Marte do que conhecer Ecologia.
Não é fácil entender a rede de relações entre os componentes básicos do ecossistema. Não é fácil entender a interdependência de tudo, de tosos os seres vivos e não-vivos. Não é fácil entender a variada de ecossistemas. A natureza existia antes de nós, os ecossistemas existiam antes nós e nós é que dependemos deles. Em cada ecossistema, cada organismo tem vida própria com uma determinada função. Não é fácil entender a equilíbrio da natureza, porque nunca é linear.
A erosão é um problema ecológico pouco discutido, mas por causa do manejo inadequado do solo, são “perdidos” só no Brasil mais de um bilhão de toneladas do solo por ano.
Na era industrial, optou-se por energia não renováveis e aí começam para valer os nossos problemas com petróleo e minérios, com a energia extrativa, levando à exaustão das reversas naturais, acumuladas desde sempre no planeta. Daí, a concentração de renda e a espoliação e manipulação do planeta.
A concentração de renda nunca esteve associada à justiça social. Pelo contrário, a concentração de rendas trouxe a corrida armamentista, a opulência de supérfluos, a poluição da miséria, a insalubridade da vida, a fome, a desnutrição...
O mundo foi dividido: os países que se industrializavam e os que forneciam as matérias-primas, mãos de obra barata e os alimentos. Com isso, a depredação. E junto com ela a fome e a miséria. (Hoje, um bilhão de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, segundo dados da ONU).
A industrialização trouxe alguns benefícios, não se pode negar, mas os males produzidos no mundo são infinitamente maiores, principalmente porque a riqueza e os bens não foram distribuídos entre todos e cada um. A ganância e o desejo de ficar rico falaram mais alto do que a voz do coração e da alma. Das desigualdades se acentuaram.
Olhemos para o problema da água potável. A água é de todos. Nos rios e córregos são despejados dejetos e esgotos das cidades e das fábricas. Um bilhão e cem milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável.dois bilhões não têm saneamento básico. 70% da água potável disponível é utilizada na agricultura. Tomar banho e dar descarga no vaso sanitário são gastos 30% da água tratada e encanada. Estima-se que, em 2015, mais da metade das pessoas estará “brigando” por um pouco de água. Um cidadão norte-americano gasta, por dia até 670 litros de água, enquanto um africano gasta apenas 20 litros. Em média, 30% da água tratada e encanada se perdem pelo caminho e não chegam às casas. Em média, 70% dos dejetos industriais são jogados nos rios e córregos, sem antes serem tratados.  Estima-se que 42 mil pessoas morrem, por semana, com problemas relacionados à baixa qualidade da água e falta de saneamento e que 90% dessas pessoas são crianças com menos de cinco anos de vida. Metade dos leitos hospitalares é ocupada por doenças transmitidas pela água.
Fechamos os olhos, ou pior, ainda, como avestruzes enfiamos nossas cabeças nas areias para não resolvermos nossos problemas. Não respeitamos um tempo hábil para a natureza se refazer, porque ela se refaz, mesmo que nos percebamos. A defesa da vida exige uma reflexão também sobre a explosão demográfica, ou sobre a má distribuição demográfica.  A concentração demográfica, os aglomerados humanos, a favelização das cidades... exigem programas sociais e até assistencialistas para estancar o problema da fome e da miséria, de habitação e saneamento.
A qualidade de vida das cidades, por causa de uma urbanização descontrolada, sem planejamento, tem piorado muito, principalmente por causa da violência, gerada por inúmeros motivos. As cidades que sempre ofereceram bons espaços para a convivência humana, agora são muros muito altos, cercas elétricas, câmaras de vigilância, criando um clima de desconfiança entre todos.
Degradação moral, pornografia, estímulos ao sexo, desemprego, chacinas são conseqüências da expulsão de homens do campo. Fala-se em mais de sete milhões de veículos circulando em São Paulo, diariamente. A cidade dos homens passou a ser a cidade dos automóveis.
Os campos e as fazendas também passam pelo processo de mecanização. As terras para produzirem mais em menos tempos são polvilhadas de agrotóxicos. Estima-se que por ano sejam comercializados mais de 150 milhões de toneladas de agrotóxicos por ano – o que dá quase mil quilos de agrotóxicos por habitante – número muito maior do que de alimentos. Os produtores de agrotóxicos não gostam desse nome e preferem que sejam chamados de defensivos agrícolas.
O uso irracional e irresponsável desses agentes biocidas contrapõe a qualquer bom senso. Protegem as plantas e, por força de sua ação seletiva, matam outras tantas, provocando um desequilíbrio na natureza, principalmente na cadeia alimentar. Não existem soluções fáceis, ou mágicas.
Acabam com umas pragas e nascem outras, ou as anteriores criam resistência. Cria-se um novo ciclo, mais ou menos parecido com o uso indiscriminado de antibióticos humanos: maior resistência, maiores doses e assim por diante. Hoje, são mais de 40 mil produtos químicos utilizados na agricultura. O risco de mutação genética, defeitos congênitos, o aumento da incidência de câncer, o aumento da obesidade são o preço que pagamos pelo progresso a todo custo e a todo risco.
A Terra pede socorro! E o socorro tem de ser urgente! A humanidade, neste atual momento, não sabe o que fazer. Os governos estão perdidos, enquanto inseticidas, biocidas, fertilizantes são lançados ao solo; enquanto a combustão e resíduos das indústrias são jogados no ar e nas águas; enquanto aditivos nos alimentos, nos cosméticos, nos remédios são comercializados livremente; enquanto permanece vazamento de fábricas, contaminação dos reservatórios de água.
A Terra pede socorro! E o socorro tem de ser urgente! O socorro só poderá vir de um acordo entre as nações, porque, pelo que tudo indica, será preciso criar um novo modelo, um novo conceito de desenvolvimento, de progresso, de civilização.
A Terra pede socorro! E o socorro tem de ser urgente! Não se admite uma hegemonia pela força de armas mais. Ou nos unamos, ou morremos todos! É urgente repensarmos sobre o respeito e sobra a igualdade de direitos e de oportunidades. É urgente repensarmos na construção da paz, a partir da liberdade de ser, de conviver, de sobreviver, de existir. É urgente repensarmos na reconstrução de uma terra de homens e mulheres livres, como queria um Francisco de Assis, um Chico Mendes, Um Gandhi, um Thoureau, um Pedro Casaldághia, um Helder Câmara, um Luther King, um Tolstoi, um Paulo Evaristo Arns, um Renato Pompeu, uma Marina Silva, uma Marina Amaral, um Cristovam Buarque e tantos outros.
O crescimento não pode ser um fim em si mesmo. Crescimento é meio para se chegar à harmonia e justiça social. Há alguns anos, era comum a gente ouvir que “o Brasil é um país rico, mas com um povo pobre!” como isso pode acontecer? Desenvolvimento, riqueza não podem estar dissociados de seres humanos. O lucro, a opulência e o desperdício não podem estar em desacordo com o bem-estar das pessoas.
O homem não é dono da vida, mas tem a obrigação de preservá-la em todas as suas dimensões. A vida é sagrada. Na história da humanidade, muitos povos se julgavam servos de Deus e em nome Dele mataram, destruíram, destroçaram outros povos e a natureza. Por que a força da morte é tão forte assim?
É pouco não matar e não destruir a natureza. É preciso mais: dar condições a todas as pessoas e a cada pessoa de se construir, de ser feliz, A humanidade, nesse sentido, é responsável pela partição e distribuição de alimentos, de moradias, de saúde, de educação - necessidades e direitos mínimos para a sobrevivência.
A natureza é patrimônio de todos. Destruí-la, no mínimo, é uma apropriação indébita. Não há lei que possa garantir a alguém o patrimônio que não é seu. A preservação e recuperação do ambiente passam pelo coração e consciência de todos. As coisas não mudam externamente, se algo renovador, transformador, revolucionário, libertador não acontecer dentro do próprio homem. Daí, a urgência de trocar os corações e as consciências de todos e de cada um.
A questão Ecológica, claro, deve ser tratada de modo científico, mas é um problema de caráter, profundamente humano. Assim, ciência e consciência podem salvar o homem, salvando a Natureza, no sentido mais amplo possível. Quando se fala em caráter, está-se falando em conter a voracidade de lucros, o gigantismo industrial, a centralização de poder, a apropriação indébita dos recursos naturais, a marcha bélica, cada vez mais sofisticada e assassina.
Não se trata de promover um apocalipse das ciências e das tecnologias, mas começarmos a pensar nos porquês e para quês das ciências. Como queremos crescer? Como desejamos progredir, desenvolver? Interessa a quem o desenvolvimento e o progresso?        
 

Questão   econômica

As empresas multinacionais corporativas são, queiramos ou não, os responsáveis da manutenção da pobreza, da miséria, nos países subdesenvolvidos, ou nos países ditos periféricos – como nas periferias das cidades, sem saneamento básico, sem moradia fixa, sem água e esgoto encanados. Elas se caracterizam pelo subdesenvolvimento industrializado, porque estão de acordo, sem nenhuma contestação, com o sistema capitalista central, com o sistema financeiro internacional, sempre excludente.
Escolhemos, sim, a dependência internacional que nos impõe condicionamentos de padrões de desenvolvimento, sempre aberto para o exterior, centralizador de bens e riquezas e renda de alguns tecnoburocráticos espalhados pelo mundo. Quem decide as medidas internas de cada país é a mão invisível do mercado, das bolsas de valores.
Por definição, empresa multinacional tem de controlar os ditos ativos – fábricas, minas, produção de energia, comercialização – em vários países. O processo de privatizações, sem praticamente nenhum controle do estado, fez e faz parte dessa explosão de capitais internacionais em todos os países. Nas privatizações brasileiras, houve até financiamentos do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Social – portanto, dinheiro do povo, dinheiro nosso, de cada brasileiro.
Tudo virou ciranda financeira e, a partir daí, as corporações, a venda e compra de empresas similares que não suportavam a concorrência, criando grandes oligopólios e monopólios internacionais. O que é nosso? O minério de ferro? O café? A Petrobras? A Vale? A Toyota? A Ford? A cerveja? A cachaça? O futebol? O samba? Os bancos? As escolas? As religiões?
Não se trata de nacionalismo exacerbado que também não leva a lugar nenhum. A expansão capitalista traz consigo um controle da alocação de recursos, um controle absoluto das pessoas, sob o signo da propaganda e publicidade massificante dos corações e das cabeças. Basta observarmos que ninguém, hoje, resiste à avalanche de produtos e bens de consumo.
Os países industrializados dispunham de excedentes de capital, necessitavam de matéria-prima, de produtos agrícolas e necessitavam de vender os seus produtos manufaturados. Os governos sem alternativas abriram o mercado de seus países e perderam o controle, porque é feito pelos países ditos centrais. Estava montado o império capitalista internacional, usando um dinheiro sem pátria e sem lastro, também sem compromisso com a qualidade de vida das pessoas, porque o lucro fácil é fascinante, a ganância não tem ética.
A produção agrícola, as ferrovias, a indústria automobilística, administração de portos, extração de minérios, geração de energia, os meios de comunicação de massa, o sistema bancário, a implantação de indústrias e postos de comercialização e serviços... exigem que os governos não interfiram em seus negócios. Na falência, nas crises, demoníaca e maquiavelicamente, querem a participação estatal, isto é, que o Estado – dinheiro nosso – coloque dinheiro para a sua “salvação”.
Com a produção de energia elétrica, principalmente, com as técnicas de produção em massa na linha de montagem, com a indústria química e petroquímica, principalmente, ninguém consegue deter o desenvolvimento a todo custo e preço, mesmo se as pessoas sofram as conseqüências do modelo desenvolvimentista. O objetivo e os interesses e as intenções são manter e ampliar os mercados.
Quando, depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil entrou na era industrial, houve a intenção de garantir o mercado externo e interno e, principalmente conter a indústria nacional que poderia ser um possível concorrente. As indústrias que vinham para cá com as mais avançadas tecnologias sufocariam fatalmente a indústria nacional. Lembram-se de que Monteiro Lobato chegou a preso porque defendia: “O petróleo é nosso!”
As inovações tecnológicas são produzidas através dos investimentos advindos das pesquisas feitas nas universidades, principalmente. Isso também explica por que não fazemos pesquisas, não há investimentos em pesquisas que garantem benefícios a todos.   
A preocupação dessas empresas é não perder mercado, ou garantir grandes fatias do mercado. O grande problema, acredito, seja, além da dependência econômica, a dependência política. Já houve algumas mudanças na leis trabalhistas – no governo de Fernando Henrique Cardoso – privilegiando o desenvolvimento industrial internacional.
No governo Fernando Collor, houve o pontapé inicial para entrarmos pra valer no jogo do mercado. Sua justificativa que fascinou o povo brasileiro foi a sua comparação dos carros brasileiros e os carros estrangeiros. “Em comparação do nosso carro e do estrangeiro, o nosso é uma carroça!” Bastou essa frase de efeito.
A industrialização de um país, de uma cidade, é, sim, importante, principalmente porque oferece muitos empregos. Não se trata de ser contra a industrialização, mas não poderá haver desenvolvimento nem do país, ou da cidade sem tecnologia. Além da dependência econômica, política, temos, agora, a dependência tecnológica – a tecnocracia.  
 Claro, não se pode negar que essas empresas multinacionais contribuem de forma decisiva com capital, primeiramente, e depois com alguma transferência de tecnologias e novas maneiras de gestão.
Alguns contra argumentam que com as reservas abertas o lucro dessas empresas é infinitamente maior do que o capital aplicado, por causa da taxas de juros praticados no Brasil. Há remessas de capital, porque houve um investimento inicial. Com o investimento, houve produção que gerou essas remessas.
 Outros contra argumentam que a transferência de tecnologia é insuficiente para a nossa autonomia e ou independência. O processo de nacionalização de empresas pode criar alguns problemas de ordem política, como o acontecido em 64. Um golpe militar financiado por capital estrangeiro, com a justificativa de o Brasil e também a América Latina estavam virando países comunistas.
Outros ainda contra argumentam que a transferência de tecnologias dá prioridade à exportação de matérias-primas e à extração de minérios, sem levar em conta os possíveis desastres ecológicos.
No governo Lula, houve uma proposta de compra de aviões para a Aeronáutica Brasileira. Uma das condições da compra foi a transferência de tecnologia. Alguns anos já se passaram e ainda os aviões não foram comprados, porque as empresas não querem transferir tecnologia. O Brasil não tem tradição de pesquisas e também não há incentivos à pesquisa, ou não há interesse político em pesquisas. Sem pesquisas não há independência, não há autonomia.
Não há mais projetos políticos nem políticos, porque, hoje, política é escrava, é a prostituta da economia. Política serve à economia e economia e ética não combinam. “Pagou, que mal tem!” Assim, com a entrada das multinacionais, com a abertura do mercado, com a ciranda financeira das bolsas de valores, as empresas nacionais tornam-se potencialmente vendáveis e valorizadas.
 O Brasil continua sendo o país que mais facilita a entrada, sem restrição praticamente nenhuma e a saída de capitais sobre os quais há somente o caráter fiscal. 


.Questão   educacional

Numa das “Semana de Seminários” da Uniube. O curso de “Ciências Aeronáuticas”, dirigido pelo Professor Wander Montandon, trouxe a Uberaba o professor José Walter Bautista Vidal – criador e responsável do “Programa Pró-álcool”.
Fiz questão de estar em sua palestra que me trouxe muito mais dúvidas e interrogações do que explicações e esclarecimentos. Como é importante para a universidade e para cidade a presença de tão ilustre brasileiro!
Sem dúvida nenhuma o que determina os rumos da história é a política. Com afirmações e números, o professor Bautista afirma com precisão: que o Brasil não é uma grande potência mundial porque não quer; que o Brasil está cada vez nas mãos dos especuladores internacionais porque quer; que os governantes irresponsavelmente escolhem caminhos não-patrióticos; que o dólar é uma moeda falsa, porque não passa de um papel pintado; que os países desenvolvidos estão falidos e à beira do caos; que a era do petróleo está no fim; que o Brasil tem um reator a fusão nuclear particular – o sol – grande fonte de energia, sem comparação com nenhum país do mundo; que nos faltam políticos à altura de nosso papel histórico para a humanidade...
Engenheiro, físico e professor prestou muitos serviços a governos com os quais até não concordava. Inicialmente, com apenas 28 anos de idade, depois de ter feito pós-graduação em física nuclear na Universidade de Stanford, criou o Centro de Geofísica, na Bahia, que formou os primeiros 67 geofísicos brasileiros que descobriram a bacia de Campos, criaram a plataforma continental para a Petrobras. trabalhando para o governador da Bahia, Luís Viana Filho, criou o Pólo petroquímico de Camaçari.
Quando aceita qualquer cargo nos governos, faz questão de dizer que “ciência é incompatível com a política. A ciência não aceita ingerências políticas.”
Já muito mais experiente, hoje, acredita que foi e é ingenuidade dele entender que ciência se faz fora do poder.Para tristeza dele, esse centro de Camaçari, criado por ele, foi privatizado e está nas mãos dos americanos, japoneses e alemães, cada um jogando para seu país, menos para o Brasil. Como se pode privatizar um centro petroquímico? Faltou força e fibra do governo brasileiro, afirma em alto e bom tom!
O Professor Bautista critica os governos frouxos que cedem espaços importantes para os neoliberais internacionais. Sempre lembra Getúlio Vargas que dizia que “um país que consegue construir suas próprias máquinas é um país vitorioso” e que o Brasil prepara a jogada, mas quem faz o gol são os outros países.
Lembra que no governo Geisel foi criado o Pró-Álcool – possibilidade de transformar o Brasil num país autônomo, numa maior potência energética do planeta, porque o Pró-Álcool era só uma ponta do iceberg inexplorado de todas as outras fontes energéticas. Em relação aos governos militares analisa que os militares somente garantiam o poder, mas quem sempre mandou no Brasil foram e são os tecnocratas internacionais. Garantiam a segurança para eles fazerem o que quisessem.
Quando Roberto Campos foi o super-ministro, o Brasil foi entregue ao capital especulativo e aos neoliberais internacionais. Nem o general Antônio Serpa tinha o poder que tinha Roberto Campos. Todo esse “debrasileiramento” teve início, então, no governo Castelo Branco. O FMI – Fundo Monetário Internacional – nomeia e sempre nomeou os ministros da Fazenda e seus diretores, desde Castelo Branco. Assim é impossível levar em frente um projeto nacional. Todo golpe é entreguista e o nosso não foi diferente.
O professor Bautista, aqui, em Uberaba, na Uniube, pertinho da gente, analisa que, em 64, segundo o próprio general Serpa, aconteceu somente porque havia um descalabro hierárquico indisciplinar entre os militares, não foi porque havia socialistas e/ou comunistas no poder, mesmo porque muitos militares eram também socialistas. Os militares assumiram o poder para que não houvesse uma desmoralização completa das Forças Armadas. Os militares não tinham um projeto político, haja vista que, em 1968, desejavam entregar o poder. O grande erro foi terem chamado esse escroque internacional, Roberto Campos.
Sobre a especulação do capital internacional, contou a história do papel-moeda, conhecida por todos. Havia o sistema de troca-troca, isto é, um produto por outro. Depois a troca passou a ser feita por ouro. O ouro acabou e passou a ser feita pela prata. A prata acabou e passou a ser feita pelo bronze. Não havia bronze suficiente, de valor muito pequeno em relação ao ouro e prata, precisava-se de muito bronze para equivaler a uma mercadoria. Nasce, então, o papel-moeda.
Avalia-se que o papel-moeda é, no mínimo, cinqüenta vezes a riqueza que deveria representar, isto é, cinqüenta vezes falso – isso é um sistema falido, fadado à falência. A moeda se ancora no poder militar dos países e assim compra-se petróleo. Esse poder, então, é transitório porque o petróleo está acabando.
Todos sabemos que a queima de combustíveis fósseis – carvão mineral e petróleo – são as causas dos grandes desastres descomunais. Oito países – Japão, Alemanha, Indonésia, Índia, Rússia, China, Estados Unidos e Brasil – são os responsáveis por mais de 75% desses combustíveis fósseis. Temos aí sete países predadores e um, o Brasil, que pode resolver o problema. Imaginemos o poder que esse nação pode ter no futuro com uma classe política e dirigente à altura dessa responsabilidade e desse papel histórico.
Temos a maior de todas as fontes energéticas – o sol. O petróleo, o xisto, a turfa, o gás natural... originam do sol, por meio dos hidratos de carbono, que são as substâncias químicas que, nas plantas, armazenam a energia que vem do sol – os açúcares, os óleos vegetais e as celuloses – e que se transformam em seres vivos – os vegetais e os animais, e que, em processo de milhões de anos, se transformam em petróleo.
Na verdade, o petróleo leva 800 milhões de anos de dependência do sol para se formar, enquanto a biomassa é a capacidade de captar a energia quase que instantânea e ininterruptamente. O trunfo é usar o dividendo imediato do sol, em vez de usar um capital que leva milhões de anos para existir. Temos a tecnologia necessária para transformar energia solar em energia produtiva.
O Brasil é a maior potência do mundo na área de biomassa. Veja que tecnologia: uma folhinha capta e armazena a energia solar de uma maneira que nem em 10 mil anos o homem chegará a processo tão perfeito. Somos a civilização dos hidratos de carbono. O petróleo, o xisto, o carvão mineral são fósseis que se armazenam no fundo dos rios, mares e lagos, durante milhões de anos, perdem o oxigênio e se transformam em hidrocarbonetos.
O poder hegemônico mundial está em fase absolutamente decadente, quer dizer, inviável, se em dez ou cem anos, na importa. O etanol tem dois átomos de carbono, o metanol só tem um e é um veneno perigosíssimo. Claro, importa para nós o etanol, o álcool etílico. O etanol é energia que passou de uma forma de açúcar para forma líquida que são os alcoóis que fazem explodir os motores. O etanol substitui a gasolina e os óleos substituem o diesel. Aí, o Brasil ganha de todos os países do mundo: temos centenas de óleo desde a mamona, o girassol, a colza, a soja, o dendê, o babaçu...
Só o dendê na região amazônica são 70 milhões de hectares. Quatro toneladas de dendê por hectare por ano dão para produzir 6 milhões de barris/dia de óleo diesel – isso é praticamente a produção de petróleo da Arábia Saudita. Nesse sentido o Brasil é, sim, uma grande ameaça a esse capital podre e especulativo. Do coco do babaçu pode-se construir um complexo petroquímico e energético jamais visto no mundo. Desse coco sai o óleo que substitui o diesel, da parte dura tira-se a celulose pura excepcional carvão natural, sem nenhuma poluição.
Muitos projetos são e foram engavetados. Há mais de quarenta projetos engavetados de grandes siderúrgicas com o carvão vegetal advindo do babaçu. Em quatro anos que trabalhou no CTA – Centro tecnológico Aeroespacial – com mais de quarenta institutos tecnológicos pelo Brasil, foi criada a melhor equipe de motores de turbina. Praticamente, o neoliberalismo fechou tudo. Culpa, sem nenhum constrangimento, a política de Henry Kissinger: ”Não admitimos um outro Japão ao sul do Equador!” Nessa época, o Brasil foi destruído.
Somos um país condenado à ruína pelo neoliberalismo que compra tudo até mesmo as consciências. É o poder sem limite que empurra também a mídia. É a ditadura mundial econômica, centralizada no FED – o banco central americano que emite papel sem dar satisfação a ninguém. (Para nós, o banco FEDE!)
Para a relação de trocas de bens e serviços são necessários 4 trilhões de dólares; circulam de 40 a 60 trilhões (no mínimo, dez vezes mais de dinheiro falso); as operações com papel-moeda ultrapassam a 250 trilhões (no mínimo, sessenta vezes de dinheiro falso), porque uma mesma moeda pode em bolsa de valores circular em muitas empresas de investimento, ao mesmo tempo – um inferno de dar inveja no Rei dos Infernos. Existe muito papel que não corresponde à riqueza real. 
O professor Batiusta faz críticas severas a essa era dos computadores que também escondem muitos interesses. “O computador é um bicho extremamente burro, tem dois dígitos no cérebro, uma criança abandonada em qualquer parte do mundo tem bilhões de dígitos”. O computador serve somente a quem comanda, porque emite ordens ao mesmo tempo a todas as partes do mundo, porque permite dirigir uma empresa via satélite de um outro país... Isso faz parte que uma opção política que o Brasil “aceitou”.
Não somos melhores, porque não queremos. Somos dependentes, porque queremos. Todo pacote tecnológico que entra no Brasil é um cavalo de Tróia – um modelo suicida por definição e natureza. O FMI transfere para a sociedade o ônus da jogatina dos investidores. Fazer empréstimos internacionais é entrar no jogo para nunca mais sair. Por exemplo, com a crise financeira do México, hoje o México, que tem a segunda maior de reserva de petróleo do mundo, não é mais dos mexicanos. As reservas de petróleo do México são a garantia de pagamento de suas dívidas.
Escrevam o que vou dizer: “Vão pedir logo logo a Amazônia como garantia de pagamento de nossos empréstimos internacionais”. Para tanto, basta a eles arrebentarem o Brasil – o que não é difícil. Só estão esperando a hora certa.
Nacionalista ao extremo diz que “O Brasil, com apenas 13% do território ocupado pela agropecuária, podia alimentar 800 milhões, no entanto, a fome mata 1.600 crianças por dia, no mundo”.
O dia de visita do professor Batiusta Vidal, talvez, tenha sido o mais importante dos últimos anos. Poderia escrever um livro inteiro só falando desse brasileiro genial, estudioso, pesquisador, sábio.
Em sua palestra, não estavam presentes duzentas pessoas. Que pena! Escreveu alguns livros importantíssimos para o Brasil: “O esfacelamento da nação” – “A reconquista do Brasil” – “Soberania e Dignidade” – “Nação soberana – civilização solidária dos trópicos”...
Se na “Semana de Seminários” da Uniube se pudesse trazer um Batiusta Vidal em cada uma delas, se todos os estudantes se interessassem em aprender e todos os professores se fizessem presentes, já teria valido a pena a continuidade desse projeto sensacional, idealizado pelo Professor Marcelo Palmério. Infelizmente, estudantes e professores não querem autonomia, inteligência, lucidez, da mesma maneira, segundo o professor Batiusta, que o Brasil, por opção dos dirigentes e políticos, não quer ciência e lucidez, inteligência e autonomia. Que pena! Que grande pena!               

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Questão   agrária

      Os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, são os grandes laboratórios, às vezes, cobaias das grandes empresas produtoras de grãos – matéria-prima – para a exportação, principalmente.
      Os conglomerados dos agronegócios – ricos e poderosos – contrastam com a agricultura de subsistência, com a chamada “agricultura familiar” – pobre e sem tecnologias.
      É uma “guerra” desigual, até desleal e covarde, porque uma guerra de bomba atômica contra o estilingue. Na disputa entre Golias e Davi, a vitória foi a de Davi. Só que, hoje, são muitos Golias contra apenas um Davi.
      A produção de grãos e de alimentos está toda patenteada e tem um dono. A título de exemplificação: a Unilev tem patenteados 4.500 produtos – seu carro-chefe é o sabão OMO – comercializado no mundo inteiro.
      Acredito, sim, que deva haver registro de patentes, mas com um tempo determinado e definido, porque, claro, essas empresas investiram muito e muito em pesquisas. Se não houver o registro, talvez, os investimentos em pesquisas sejam diminuídos.
      As empresas do agronegócio – sempre multinacionais, ou internacionais, ou transnacionais, com raras exceções – não estão nem aí com as políticas públicas de cada país, onde se instalaram ou instalam.
      Para elas, o que é bom para os norte-americanos, para os ingleses, para os suíços, é bom também para todos os países, tem de ser bom para brasileiros, chineses, africanos, paraguaios, para todas as pessoas do mundo – o que é um absurdo, porque um desrespeito às especificidades e necessidades de cada região, de cada país.
      Dizem que o maior lobby, hoje, no mundo são os produtos quimicofarmacêuticos e os quimicoalimentares. Falando baixinho para que ninguém me escute: produzem alimentos que causam algumas doenças e oferecem o remédio para a cura dessas mesmas doenças.
      Mais ou menos, acontece assim com quase tudo: quem cria o vírus do computador, cria o anti-vírus; quem cria uma necessidade de comprar, de consumir, cria uma solução para as mesmas necessidades – essa é a ciência do marketing.
      Não há leis, normas, regulamentação que resistam às tentações de um lobby – tão poderoso e insinuante! Não é fácil quebrar patente de qualquer coisa, mesmo que seja de fundamental importância para as pessoas. Alguns medicamentos tiveram suas patentes quebradas em órgãos internacionais.
      As empresas de agrobiotecnologia, produtoras de sementes, de transgênicos, registram suas patentes – propriedade intelectual – e não querem nunca abrir mão de suas fórmulas e tecnologias.
      Vamos trocar em miúdos: essas empresas promovem uma modificação genética para que as plantas resistam, por exemplo, a ataques de insetos. Além disso, herbicidas, agrotóxicos, nutrientes para o solo. Até parece um milagre! Se tudo isso é bom, se tudo isso parece um milagre, por que não permitir que todos tenham acesso a esse milagre?
      O milagre se estende, principalmente, sobre o campo econômico. É mais barato semear sementes transgênicas, mas também híbridas – sem possibilidade de reprodução. Sem a quebra de patentes, todos os agricultores vivem sob a tutela dessas empresas – uma espécie de escravidão branca, tamanha é a dependência. Com a posse das patentes, as empresas buscam de todas as maneiras possíveis, em todos os países, a ampliação dos prazos das patentes.
      Nasce assim uma “guerra” jurídica. Claro, a guerra continua desleal e covarde, já que essas empresas contratam também os melhores advogados dos melhores escritórios do mundo.
      O mundo não suporta mais o “cada um por si” – “o mundo é dos espertos” – “a lei do Gerson”. O interessante é que, em alguns países, judicialmente, as empresas têm de abrir mão de fórmulas e tecnologias, das patentes – o que vale exclusivamente para esses países. As empresas são internacionais, mas as decisões nos tribunais não são internacionais.
      Como a maioria das sementes são híbridas, cada vez que alguém quer semear essa sementes, terá de comprá-las nas mesmas empresas. E mais, as sementes compradas têm de ser plantadas imediatamente, porque têm um prazo de validade, impedindo, por exemplo, que agricultores armazenem sementes para, por exemplo, uma próxima semeadura. É o milagre com tempo definido!
      Nada é feito por acaso. Tudo é planejado para se obter maiores lucros e criar a dependência e submissão dos agricultores. E mais, o preço do produto posteriormente é controlado internacionalmente pelas mesmas empresas. “Se ficar o bicho come, se correr o bico pega!”
      Quem se arrisca a desafiar as grandes empresas estará criando um grande problema futuro: a comercialização. Como vender um produto, principalmente no exterior sem a certificação dada por essas mesmas empresas. Outra guerra desleal e covarde!
      Vira notícia no mundo inteiro um carregamento de navio sem produtos certificados. Aí, cria-se outra guerra desleal e covarde, porque quem detém as patentes são as mesmas empresas que detêm o controle dos meios de comunicação. Claro, os agricultores não suportam tantas guerras, entregam as armas e cedem seus territórios.
      Alguns mais ousados, em vez de, por exemplo, comercializar os grãos, começaram a comercializar farinhas dos grãos, já que entendiam que a patente incidia apenas somente sobre a planta viva. Doce ilusão! Pura ilusão!
      Essas empresas conseguiram, na justiça, a comercialização das farinhas. Assim acontece com a soja, com o milho, com frutas... A guerra continua desleal e covarde, porque conseguem eliminar sumariamente qualquer possibilidade de concorrência.
      Se os alimentos produzidos pelas sementes transgênicas fazem bem ou mal para as pessoas nunca é levado em conta. Os efeitos, claro, nunca são imediatos. Qual a segurança alimentar que as pessoas têm? Só o futuro nos dirá. É preciso lançar as sementes de um futuro mais leal, menos covarde, mais humano!  
 
Questão   artística

Na edição passada, escrevemos um pouco, bem rapidamente sobre o Barroco. Vamos escrever também um pouquinho, hoje, sobre o Barroco no Brasil.
Talvez, tenhamos tido dois movimentos artísticos com a cara bem brasileira: o Barroco e o Modernismo. O Barroco brasileiro expressou, durante o período colonial, principalmente na arquitetura e escultura, os gritos de socorro, a dramaticidade e a instabilidade do povo, então da época, usando formas sem conexão, sem lógica, figuras retorcidas e sofridas.
As imagens dos santos com muito sofrimento, dor e sangue, colocadas em altares de puro e prata. Talvez, até uma revolta em relação à própria Igreja: enquanto a casa de Deus (o templo) é rica, apinhada de ouro e pedras preciosas, Deus, o dono da casa, representada, principalmente na figura de Cristo, pobre, esfarrapado, com olhos bem arregalados, muitos machucados e muito sangue.
Para outros, as imagens de Cristo era a imagem do povo, colonizado, dependente, pobre, sofrido, doente, esfarrapado, ensanguentado, vivendo num ambiente do colonizador, os portugueses, rico, porque já havia roubado muitas riquezas e pedras preciosas e ouro do Brasil.
Vale dizer, então, que existem várias leituras das mesmas obras de arte: uma leitura político-econômica, uma leitura religiosa; uma leitura sócio-humana; uma leitura ético-filosófica...
O apogeu do Barroco no Brasil se deu no século XVIII, permanecendo até o século XIX, até a vinda da Família Real para o Brasil, em 1808 e, depois, em 1816, com a chegada da Missão Francesa.
O Barroco brasileiro está presente nas igrejas da Bahia, do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de Goiás e, principalmente, nas de Minas Gerais, talvez o estado mais explorado e roubado pelos portugueses. Não por acaso também em Minas, nasce o movimento pela independência do Brasil, mais significativo: a Conjuração Mineira, chamada pelos portugueses de Inconfidência Mineira.
Aleijadinho, Antônio Francisco Lisboa, nascido em 1730 e morto em 1814, é nosso representante maior na arquitetura, desenho e escultura barroca mineira. Seu mestre: João Gomes Batista. Isso para dizer que não sofreu influência de outros artistas europeus. Mesmo assim, é interessante notar algumas semelhanças com os artistas europeus.
Seu apelido Aleijadinho se deve a uma doença que deformou seus membros (dedos),  paralisou algumas partes de seu corpo (rosto retorcido) e enfraquecimento da vista, além do mau cheiro e um certo constrangimento e desconforto na presença de pessoas. Um escravo lhe amarrava os instrumentos de escultura nas mãos. Seu nome: Maurício de Tal. Trabalhou principalmente com o cedro e pedra-sabão. Trabalhou em Ouro Preto; em Sabará; em fazendas da Serra Negra, Tabocas e Jaguara; em Mariana; São João Del rei; em Caeté; em Congonhas do Campo...
Pelo grande número de obras deixadas em várias cidades, muitos historiadores acreditam que muitas delas não foram feitas por ele, mas somente atribuídas a ele.
Seu estilo: dramático-teatral: as figuras, as imagens com um físico até robusto, com músculos e veias à mostra, olhos sempre abertos e rasgados, ossos salientes, sobrancelhas altas, lábios sinuosos e sensuais, dedos alongados e finos, alguma má formação em algum membro só percebida dependendo do local em que está o observador. Muitos não conseguem perceber essas “monstruosidades”.
Manuel da Costa Ataíde, Mestre Ataíde, nascido em Mariana em 1762, é considerado o maior pintor barroco. Pouco se sabe de sua infância e juventude. Talvez, tenha sido amigo de Aleijadinho e ambos fizeram o que tem de mais importante nesse período colonial. Acredita-se que Aleijadinho fazia a arquitetura e o Mestre Ataíde ia dando os retoques de acabamento, com sua pintura. A Igreja de Congonhas do Campo, Santuário de Bom Jesus de Matosinho, a Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, são bons exemplos dessa parceria. Também suas imagens se parecem com as pessoas bem brasileiras (por exemplo, uma Nossa Senhora Negra, rodeada de anjos também mulatos, pardos e negros, no teto da igreja de São Francisco). Luzes e sombras, jogo e combinação de cores – traços marcantes de sua obra – nos mostram sua visão conflitante do ser humano: o humano e o celestial, as trevas e a luz. Muitos detalhes de sua obra são percebidos também pelo ponto de vista do observador.
Outros artistas não tão famosos, mas com a mesma importância, são: Caetano da Costa Coelho, no Rio de Janeiro; José Joaquim da Rocha, na Bahia; Frei Jesuíno de Monte Carmelo, em São Paulo; mestre Valentim, no Rio de Janeiro...
O Barroco é a afirmação, sem dúvida, da nacionalidade brasileira. A literatura brasileira barroca, praticamente, fixou-se na Bahia e destacam-se: Padre Antônio Vieira, Gregório de Matos Guerra e Manuel Botelho de Oliveira.
Gregório de Matos Guerra – um dos mais originais poetas brasileiros – nasce na Bahia em 1633 e morre em 1696. Advogado, faz carreira jurídica, clérigo tonsurado, mas não aceita usar batina e deixou de ser o tesoureiro-mor da Sé. Começa a escrever sua obra, vivendo da advocacia. Não poupa ninguém. Faz críticas aos gananciosos, aos poderosos, aos que buscam o prazer a todo preço, suas críticas são tão ferozes que ganha o apelido de “Boca do Inferno”.
Leva uma vida de boêmio, sem nunca deixar de lado as críticas. É deportado para Angola, mas depois volta ao Brasil. Era um panfletário, quase um pichador de muros. Basta saber que em vida nada foi publicado. A primeira coletânea com alguns poemas e aforismos só foram publicados bem depois de sua morte, em 1831. Faz poemas líricos e satíricos.
Padre Antônio Vieira – representante maior da literatura barroca luso-brasileira – gênero oratória – nasce em Lisboa em 1608 e morre em 1697. Vem ainda criança para o Brasil. Torna-se jesuíta. Orador implacável, combate com sermões, por exemplo, a invasão dos holandeses no Brasil; defende os índios que eram escravizados, defende também os escravos negros dedica-se à catequese. No final da vida é acusado de heresia pela “Santa” Inquisição. Seus sermões são muito importantes para historiadores e pesquisadores brasileiros.
Manuel Botelho de Oliveira, nascido em Salvador em 1636 e morre em 1711, é autor de peças de teatro e poesias. É considerado  o primeiro autor nascido no Brasil a publicar livro de poesias. Erudito, escrevia em português, espanhol, italiano e latim. Estilo rebuscado, com excesso de metáforas, de antíteses, imitador dos clássicos europeus. Sua obra-prima: Música no Parnaso.


Questão   universitária

As universidades são periodicamente avaliadas e a imprensa, como urubus atrás da carniça, busca só as informações que possam desmoralizar as universidades, as escolas e o ensino.
Isso acontece aqui, em Uberaba, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Vassouras, no interior do Rio. Não é função da imprensa avaliar escolas. Pra isso existe o MEC – Ministério da Educação, Secretarias de Estado de Educação, Secretarias Municipais de Educação.
Estou contando histórias de escolas, mas vou fazer parênteses (não me agüento sem falar!) para criticar essa imprensa carniceira. O jornal “Folha de São Paulo” irresponsavelmente “fechou” a Escola Base, com denúncias falsas, envolvendo diretores e professores.
O jornal já foi condenado judicialmente. Deve pagar por isso! Só que dinheiro nenhum paga uma desmoralização, uma humilhação, uma irresponsabilidade.
Pior de tudo é que os donos do jornal se julgam donos e senhores da honestidade e da verdade.
Pior ainda, o jornal serve de modelo para tantos outros jornais e de modelo nas escolas de jornalismo. Há um velado desprezo pela educação nos meios de comunicação.
Os meios de comunicação estão se apresentando como urubus, que adoram carniça e da desgraça dos outros. E como a desgraça dos outros vende jornais, revistas e provoca audiência em rádios e canais de televisão!
Como falam mal dos estudantes nas provas do ENEM, ENADE, nos exames da OAB... Não levantam hipóteses sobre o que está acontecendo, não sugerem, não ouvem professores, mas largam o pau, descem o malho. Quanta irresponsabilidade!
Aos domingos, por exemplo, o Fantástico mostra as piores escolas tanto no aspecto físico, quanto nas propostas pedagógicas. (Isso não é jornalismo!)
Existem escolas maravilhosas espalhadas pelo Brasil. Se forem mostradas, poderão, sem dúvida nenhuma, estimular a outras para que façam o mesmo.
Vou deixar para lá essas picuinhas da imprensa. Não vale a pena entrar nessa seara. Há mais sujeiras do que possamos imaginar.
Vou contar histórias de gente que possa servir de modelo a tantos outras pessoas. Hoje, agora, aqui, vou contar uma história de Ivo Pitanguy que é muito linda!
Pois é, a Faculdade de Medicina de Vassouras é pichada, malhada, escachada, todos os anos pelos órgãos de imprensa. Lá estudou não menos Ivo Pitanguy, talvez o maior cirurgião plástico o Brasil.
É, sim, o estudante que se faz, que se constrói, mas o ambiente onde está é um grande facilitador. A Faculdade de Vassouras não é assim tão ruim, como se fala. Quem dera que em cada faculdade formasse um Ivo Pitanguy.
Hoje, todo mundo vê o médico Ivo Pitanguy, muito rico, um embelezador de mulheres, desfilando na revista Caras, rodeado de muitas mulheres bonitas e brilhantes. (Brilhantes, aqui, pode ser entendido como cheias de brilho!)
É, sem dúvida, um dos médicos mais conscientes do Brasil, com senso de bem-comum como poucos. Chega a afirmar que seu grande hobby é trabalhar. E trabalha muito! No mínimo, a faculdade não o estragou, não tirou os sonhos de cidadão, de um mundo melhor.
Houve um grande incêndio, numa tarde de domingo, num circo, na cidade de Niterói. Dr. Ivo, ainda moço, mas já famoso, via televisão. De repente, uma edição extraordinária: “Incêndio num circo em Niterói deixa muitos mortos e muitos feridos. Muitos pisoteados e esmagados por outros. O desespero tomou conta das crianças”.
Imediatamente, dr. Ivo convocou sua equipe toda por telefone e se dirigiu à Santa Casa.
Naquele dia, gratuitamente, ele e sua equipe atenderam a mais de cem crianças, deformadas, pisoteadas, desesperadas, com a alma destruída, com muitas fraturas.
Foram feitas mais de oitenta cirurgias plásticas. Só fez isso: reconduziu à vida normal os deformados no corpo e na alma.
Doou sua ciência, sua sabedoria, seu trabalho voluntário e ininterrupto, sua equipe médica, seu amor aos seres humanos.
Viva a Faculdade de Medicina de Vassouras! Há muitos estudantes melhores do que as escolas onde estudaram, mas há também muitas escolas melhores do que seus estudantes!    


Questão   de   favor

Os grandes meios de comunicação, ou a maioria deles, são empresas-familiares, e por isso são menos democráticas do que as outras, já que as decisões não são partilhadas, compartilhas, sentidas e consentidas por todos os “seus” trabalhadores.
No mínimo, há quarenta anos que nasce um projeto aqui, outro ali para que as leis e as normas regulem o controle das empresas dos meios de comunicação de massa. Muitos projetos são engavetados.
É um mercado altamente lucrativo e por isso também o governo não abre mão de conceder canais de rádio e de televisão às pessoas que “deve um favor político”. Só para termos a dimensão desse mercado, vamos levantar alguns números:
·  são 95 milhões e 100 mil aparelhos de televisão já vendidos e em funcionamento;
·  são 88 milhões e 900 mil de aparelhos de rádio vendidos e em funcionamento;
·  são 78 milhões e 100 mil aparelhos de telefonia móvel vendidos e em funcionamento;
·  são 8 milhões e 900 mil revistas que circulam semanalmente;
·  são 4 milhões e 500 mil jornais que circulam diariamente;
·  são 23 milhões e 800 mil computadores com acesso à Internet;
·  são 11 milhões e 700 mil assinaturas de canais de televisão, a chamada TV paga.
É um mercado fabuloso. O interessante é que o governo concede e mantém esses mesmos meios com propaganda e publicidades do próprio governo. Os políticos “adoram” aparecer nos canais de televisão, nas estações de rádio, nas revistas, nos jornais e na Internet, porque também na maioria dos meios, eles são donos.
Como há eleições a cada dois anos, claro, esses meios de comunicação são de fundamental importância nas suas campanhas, ou nas campanhas de seus companheiros. Há, então, uma troca de favores. Como favor não tem preço, cria-se uma rede de “rabos presos”.
      Discussões acirradas, lobbys, jogo de interesses e intenções na Câmara e Senado! Toda e qualquer lei não agrada a gregos e a troianos, a palmeirenses e a corintianos - o que não é motivo de não fazê-la, ou deixar de cumpri-la.
Nesse jogo fantástico e fantasioso: “Amigos, amigos; negócios à parte!” ou ainda “Para os amigos, a amizade; para os inimigos a lei!”. Mas a lei não é para todos? É dando que se recebe!”

Questão   franciscana

      “Há uma convicção dos mestres espirituais e dos sábios de todas as culturas segundo a qual a paz entre as pessoas e os povos passa pela alma e pelo coração. Se alguém – um povo, uma nação, uma pessoa, um movimento social – quiser estar bem com os outros, deve estar bem consigo mesmo. Deve pacificar sua alma, encontrar sua centralidade e reunificar as tendências dispersivas e destrutivas que conspiram contra a paz.
      Podemos realizar essa tarefa sozinhos? Não! Os mesmos mestres testemunham que podemos fazer muito por nós mesmos e que somos responsáveis pelo que nos cabe. Mas ainda não é o suficiente. Por isso, devemos nos abrir à Fonte primordial da vida, de onde emana toda paz. Se não bebermos desta Fonte através da oração e da meditação, nossa paz poderá ser apenas uma trégua momentânea, mas jamais a paz almejada pelo nosso coração.
      Santo Agostinho nos adverte continuamente: “Irrequieto estará meu coração enquanto não descansar em Ti, Senhor!”
               
Texto tirado do livro “A Oração de São Francisco – uma mensagem de paz para o mundo atual” de Leonardo Boff, publicado pela Editora Sextante, Rio de Janeiro, 1999.