quinta-feira, 24 de março de 2011

QUESTÃO - 1

AFA
ACADEMIa FRANCISCO DE Assis

questão
março – 2011 – 1ª edição

Uma alternativa!  Uma alternativa de participação, como leitor e como escritor. No ano de 1987, houve uma primeira tentativa de publicação desse pequeno jornal. Foram apenas duas edições e teve uma boa repercussão. Agora, muito mais modestamente, usando xerocópias, estamos fazendo nova tentativa, aberta a todos os professores. Sem patrocínio (a intenção é nunca “vender” apoios, publicidades, patrocinadores, para que todos livremente possam pensar, refletir, expor seus pensamentos), mas criando um espaço legal de opiniões, de debates.Claro, ninguém é obrigado a concordar com nada e, mesmo discordando, lutaremos sempre para que nunca deixe de pensar, de refletir, de expor seus pensamentos. Questão quer ser também um instrumento de Paz, por isso escolheu a empresa a f a - Academia Francisco de Assis. (Empresa ainda não registrada e regulamentada). A palavra Academia quer resgatar o sentido grego: reunião de pessoas que conversam, estudam, pesquisam, exercitam o corpo e alma.
Professor Décio Bragança Silva

questão   econômica

A tendência de toda crise é se agravar cada vez mais, tornando-se mais aguda e profunda. Para os economistas, a solução para uma crise econômica será sempre a especulação financeira, buscando os paraísos fiscais, as melhores taxas de juros em qualquer país do mundo, já que, em crise, não se consegue fazer investimentos produtivos. Já que não dá para produzir, a solução é a “jogatina”, nos templos do capitalismo em homenagem ao deus Mercado, nas bolsas de valores – um verdadeiro cassino. “Quem dá mais?” – Quem me dá mais?”
As consequências dessa especulação são sentidas por todos e não só para os capitalistas ferrenhos. Os problemas sociais se agravam, a perda da qualidade de vida das pessoas, o bem-estar e até o encantamento pela vida chegam ao seu limite, já que, por exemplo, os governos vêm ao socorro do sistema, ajudando bancos e corporações. Governo, todos sabemos, não tem dinheiro.
O dinheiro é de todos. Dinheiro de aposentadorias, de reajustes de salários, de investimentos em saúde, em saneamento, em educação, em cultura, de políticas públicas que asseguram a todos os mesmos direitos, são desviados para o setor financeiro. Daí, o desemprego, o aumento da criminalidade, de assaltos, de seqüestros, da violência sem razão e sem motivo aparentes, a insegurança nas ruas e no campo, o aumento da pobreza e da miséria.
O interessante disso tudo é que, muitas vezes, tudo isso é camuflado ou mostrado como sendo uma crise religiosa, ideológica, regionalizada.
Vejam-se os exemplos do Egito, da Líbia, do Barein, do Irã, da Grécia... Em outros países, como França, Itália, Inglaterra... são os protestos violentos, mas que nos são apresentados como sendo ação de baderneiros, niilistas, sem esperança e sem amor.
Toda crise, teoricamente, é salutar, porque pode ser até uma nova oportunidade de ajustes, compromissos com as pessoas. Pode ser também um momento de fincar raízes, como o avanço do fundamentalismo, da direita enlouquecida e intolerante.
Lembram-se de que nas últimas eleições presidenciais houve até discussão se um candidato ou outro acreditava ou não em Deus? Se a favor ou contra o aborto? Se a favor ou contra o casamento de homossexuais? Não foram discutidas propostas políticas! Não foram discutidas propostas econômicas!
E vejam que a presidenta Dilma quase perdeu as eleições porque se entendeu que ela era a favor do aborto, que ela não acreditava em Deus. Ela poderia ter perdido as eleições porque não tinha nenhuma proposta séria para as pessoas.


Questão   literária

Em cada edição do nosso Questão quero trazer um escritor para a discussão. Vamos conversar sobre Franz Kafka, genial e demoníaco, discutido e lido em todas as partes do mundo, simples na expressão e complexo nas filosofias, ao mesmo tempo, antifascista e anticapitalista, surpreendente e fabuloso.
Nasce na cidade de Praga no dia 3 de julho de 1883 e morre em 3 de junho de 1924. Filho mais velho de uma família judia de outros cinco irmãos que morreram muito cedo. Começou a escrever pequenas peças de teatro ainda adolescente. Fez o curso de Direito, mas nunca exerceu de fato a profissão. Solitário, fechado, ensimesmado, sofria muito com a morte de alguns poucos amigos, sofria o preconceito racial e a hostilidade anti-semita, gostava de nadar e de remar.
Nunca admitiu ser um bom escritor e não acreditava ser válido o que escrevia. Sentia necessidade de crer em algo superior, mas nenhuma religião o satisfazia. Na verdade, não conseguia adaptar-se à vida social, à vida de trabalho e à vida familiar. Nunca participou de movimentos revolucionários, apesar de ter simpatia por todos eles.
Sobre o capitalismo afirmou: “O homem gordo domina o homem pobre dentro de um determinado sistema, mas é preciso distinguir entre o homem gordo e o sistema. O gordo não é dominador, de fato. Pelo contrário: ele também se acha manietado. O capitalismo é um sistema de dependência que se estabelecem de dentro para fora, de fora para dentro, de cima para baixo e de baixo para cima. Tudo está relacionado com tudo e tudo fica preso a tudo. O capitalismo é um estado do mundo e da alma.”     
Escreve o livro “A construção da Muralha da China” que só foi publicado após sua morte. Talvez, esse seja o livro em que se manifestam as suas ideias políticas, o inconformismo com a organização da sociedade, a desumanidade das instituições sociais, o jogo de intenções e interesses dos poderosos com o planejamento da construção da muralha, a opressão imposta aos operários que nem sequer sabiam o que estavam fazendo, porque não tinham a noção do todo,
Escreve “Um artista da fome” – uma história absurda em que um empresário contrata um artista para, numa vitrine, jejuar, não comer nada, durante 40 dias. O empresário faturou alto com o jejuador profissional, exibido em vários lugares. Com o tempo, o jejuador já não fazia tanto sucesso e os lucros do empresário diminuíram. O jejuador vai trabalhar num circo. Seu corpo vai definhando até virar um monte de ossos. Foi tirado da jaula e jogado à própria sorte. Uma frase impressiona a todos que leem essa história: “Sou obrigado a jejuar, porque nunca encontrei comida que realmente me agradasse.”
Escreve, em apenas dez horas, entre o dia 22 e 23 de setembro de 1912, a novela: “A Condenação” – uma estranha história de amor juvenil em que o noivo, cumprindo uma praga lançado pelo pai, já gagá, suicida-se  jogando num rio.
Kafka escreveu muito e amou muitas mulheres. Dizia que namorava para esquecer a solidão, o tédio, a angústia de viver. Para ele, as mulheres não precisavam de nome. Namorava-as até sem saber seu nome. Sua grande paixão foi, sem dúvida, Felícia Bauer, com quem ficou noivo e teve um filho. Kafka não conheceu o filho que morreu aos sete anos de idade. Sofre de hemoptise e tuberculose.
Escreve “A Toca” conto em primeira pessoa, considerado autobiográfico, tendo como personagem central um animal, que, assustado e perseguido, constroi uma toca, semelhante a um labirinto, cheio de caminhos, entradas e saídas subterrâneas para a ventilação.
Escreve “Na Colônia Penal” – uma crítica ferrenha ao nazismo e ao mesmo tempo profética já que o nazismo se instalou no poder anos depois. Onde foi enterrado o comandante da colônia penal, morto no lugar de um condenado, está escrita a seguinte inscrição: “Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, cujos nomes por ora devem permanecer secretos, abriram-lhe esta cova e dedicaram-lhe esta lápide. Dentro de alguns anos, quando seus adeptos forem mais numerosos, ele voltará a se erguer e reconquistará a colônia. Tende fé e esperai.”
Escreve “O processo” – cujo personagem central é preso em seu quarto por dois investigadores de polícia, em virtude de uma acusação que nem os investigadores nem o “acusado” sabiam qual era. O personagem é levado a uma e a outra delegacia sem que houvesse alguma acusação. Essa obra já foi muitas vezes adaptada para o teatro e para o cinema. (Vale a pena ver o filme!), faz críticas ferozes à burocracia, as fraudes, à inoperância, aos desmandos, a lentidão, o descaso do sistema judiciário. É condenado à morte sem acusação, sem sentença, sem crime.
Os livros “A metamorfose” e “O Processo”, no ano de 2001, foram escolhidos por uma comissão internacional de notáveis como os CEM MELHORES LIVROS DO SÉCULO XX. Único escritor com dois livros nessa lista.   
Kafka, para demonstrar a condição de animalidade do ser humano, transforma personagens centrais em animais, como em “A Metamorfose”, transformado em barata; em “Josefina”, transformada em rato; em “Investigações de um cachorro”, transformado em cão; em “Relatório para uma Academia”, transformado em macaco; em “Um animal Híbrido”, transformado em metade cordeiro e metade gato..
Doente e frágil, tuberculoso e angustioso, não recusa um tratamento médico a quem dirige graves ofensas: “O mal dos pulmões é apenas um extravasamento do moral. (...) Evidentemente, os médicos são tolos. Ou, para dizê-lo melhor, sem serem mais tolos do que os outros homens, tem pretensões ridículas. Mas, a partir do momento em que a gente se coloca nas mãos deles, é preciso que se diga que eles se tornarão cada vez mais tolos.”
O tema alienação – viver fora na realidade histórico-geográfica – é uma constante na obra de Franz Kafka. Alienação está muito próximo de submissão, subserviência, obediência cega, surda e muda. Como seres livres e criativos, os homens não podem deixar-se alienar, deixar de influenciar no meio social – coisa de animais. Os homens ainda não sabem o que fazer com a liberdade, com a criatividade. Preferem, como carneiros, obedecer e calar-se num mundo opressivo, tendo um inimigo invisível que nos amedronta e aniquila.Vale a pena ler a obra completa de Franz Kafka.  

   
Questão   internacional

Nos meios de comunicação de massa “as aparências enganam”. Em geral, há uma insinuação perniciosa e criminosa, fruto de preconceitos e discriminações, contra o mundo dos árabes, contra o mundo dos muçulmanos, principalmente contra o Irã.
Sabe-se que as negociações econômicas entre os árabes e os países da América do Sul têm crescido como nunca, atingindo uma cifra de 2,9 bilhões de dólares – uma cifra respeitada e respeitosa! Acordos entre esses países são assinados quase que diariamente. O intercâmbio Brasil/Irã só, em 2009, rendeu 1.297 bilhão de dólares, com a promessa de que, em 2014, essa cifra chegará a 10 bilhões de dólares.
O ex-presidente Lula foi muito criticado, inclusive pelos Estados Unidos, quando se aproximou de Teerã. Os interesses dos países são puramente comerciais, econômicos. A secretária de Estado, Hilary Clinton, chegou às raias da irritação contra o Brasil, alegando que Irã exporta terrorismo, que é uma péssima ideia qualquer aproximação com o mundo árabe. Os meios de comunicação engolem, goela adentro e abaixo, as palavras de Hilary e propagam-na como verdade absoluta, como sendo a luta do Bem contra o Mal.
A verdade é que o 11 de setembro será inesquecível para os norte-americanos. As relações entre as nações têm de ser transparentes e independentes, sem a interferência de inimigos de um lado ou de outro. O Brasil ou qualquer outro país tem de ter autonomia para negociar o que quer que seja. Guerra, não! Autonomia, sim! Guerra, não! Liberdade, sim!
O povo brasileiro não sabe o que é guerra e os norte-americanos adoram fazer guerra – essa é a nossa diferença! Os Estados Unidos têm bases militares espalhadas pelo mundo. Nós temos o samba, Tom Jobim e Vinicius; o futebol, Pelé e Zico; as belas mulheres, Gisele e Vera, espalhados pelo mundo. Além dos países árabes, a China é a grande parceira do Brasil.
A diplomacia brasileira tem aberto portas e janelas nunca antes abertas ou impossíveis de serem abertas. O Brasil entendeu que pode crescer com tantos outros parceiros africanos, asiáticos, comunistas, monogâmicos, poligâmicos, heterossexuais, homossexuais, capitalistas, muçulmanos e católicos. Isso é também autonomia, porque livre da parceria somente com as grandes potências. Negociar é respeitar o direito dos outros.        


Questão   religiosa

Conta-nos a história bíblica que, depois de Deus ter criado tudo, criou o homem do barro, do pó. “Tu és pó e ao pó há de tornar-se”. Deus soprou-o e lhe deu vida, dando-lhe a terra maravilhosa para a sua admiração, glória e deleite. Viu Deus que o homem – Adão – estava muito só e quis dar-lhe uma companheira. Adão entrou num sono profundo e Deus tirou-lhe uma costela e fez a mulher – Eva.
Essa metáfora nos faz crer que assim o homem torna-se filho de Deus e a mulher, filha do homem – o que mais tarde, na história da humanidade, vai se tornar um grande problema: o homem como filho de Deus deverá dar satisfações a Deus e a mulher como filha do homem deverá dar satisfações ao homem – estava criada a primeira verticalização perversa da futura organização social.
Até, depois do “pecado”, os castigos serão diferenciados, penalizando muito mais a mulher: o homem deverá trabalhar muito (ganhar o pão com o suor do rosto) para ser o provedor e a mulher deverá dar à luz com muita dor. Para o homem, o trabalho como sacrifício – “homem que é homem tem de trabalhar”; para a mulher, o parto dolorido – “mulher que é mulher tem de parir” – definindo bem os papeis e as funções de cada um. Por isso, raras vezes sentimos prazer no trabalho e parto sem dor.
Assim, muitos, até hoje, pensam ser a mulher submissa ao homem. O homem que produz o sêmen é o semeador (etimologicamente têm o mesmo radical latino); a mulher, a terra fértil que acolhe a semente. A cada 15 – quinze – segundos uma mulher sofre violências físicas e psicológicas de seu companheiro: marido, namorado, ex-marido, companheiro...
A construção da imagem da mulher pelos homens, através dos tempos e lugares, foi sempre a de “pecado”, porque, segundo a história, foi a mulher-Eva quem induziu o homem-Adão a comer o “fruto proibido”. Nossos pais e avós ensinavam aos homens: “Cuidado: uma mulher poderá te levar para o céu ou para o inferno!”.
A literatura e as artes sempre exploraram e exploram a noção de mulher-pecado, que faz o homem sofrer, matar, suicidar-se. Algumas religiões, até o século XIX, não admitiam que a mulher tivesse alma, espírito; por isso, depois de morta, ia para o limbo – lugar virtual, sem felicidade, mas também sem infelicidade; sem alegria, mas também sem tristeza – um marasmo total e absoluto.
O homem, em praticamente todas as religiões, menos as africanas, era entendido como alguém que tem de dar satisfação a Deus, depois de morto; por isso vai para o inferno ou vai para o céu. Tudo, em sociedade, foi e é construído a partir de um jogo de intenções e interesses, imperceptíveis e secretos, inconfessáveis e latentes.
As noções de masculinidade e feminilidade, de pecado e virtude, de céu e inferno, têm de ser questionadas profundamente. Por que para algumas religiões não existe inferno, não existe pecado? Por que em algumas tribos indígenas as mulheres parem sem essa dor insuportável, como afirmam as mulheres cristãs? Por que em algumas tribos quem sente as dores do parto é o homem? Será também a dor construída cultural e socialmente? Não será real (verdadeiro/concreto) o que é virtual? Não será virtual (mentira/ ilusão/mito) o que é real? O céu, inferno, diabo, pecado são reais ou virtuais?
O fato é que quando se fala muito em diabo, capeta, demônio, anhangá, anhangüera, anjo mau, arrenegado, atentado, azucrim, beiçudo, bicho, bicho-preto, bode-preto, bute, cafuçu, cafute, caneco, canheta, canhim, canhoto, cão, cão-miúdo, cão-tinhoso, capa-verde, capeta, capete, capirocho, capiroto, careca, carocho, cifé, coisa, coisa-à-toa, coisa-má, coisa-ruim, contra, coxo, cujo, debo, decho, demo, diá, diabro, diacho, diale, dialho, diangas, dianho, diogo, droga, dubá, ele, Espírito de porco, excomungado, exu, feio, figura, fute, futrico, galhardo, gato-preto, grão-tinhoso, indivíduo, inimigo,lúcifer, mafarrico ou manfarrico, maioral, maldito, mal-encarado, maligno ou malino, malvado, mau, mofento, mofino, moleque, moleque-do-surrão, não-sei-que-diga, nem-sei-que-diga, pé-cascudo, pé-de-cabra, pé-de-gancho, pé-de-pato, pé-de-peia, pedro-botelho, pêro-botelho (ê), porco, porco-sujo, que-diga, rabão, rabudo, rapaz, romãozinho, sapucaio, sarnento, satânico, sujo, temba, tendeiro, tentação, tentador, tição, tinhoso, tisnado (lista do dicionário Aurélio), acrescido de inferno, trevas, pecado, descarrego, despacho, condenação eterna, acerto de contas com Deus... as pessoas dessas religiões ficam ricas, muito ricas, porque “seus” fieis ficam sempre ameaçadas em vida por Deus. Vender a alma ao Diabo, como já foi retratado em Fausto, dá muito dinheiro, dá muitos dividendos e lucro.
O fato é quando se fala muito em Deus, amor, adoração, veneração, louvor, céu, virtudes, solidariedade, afeição, amizade, partilha, carinho, ternura, entusiasmo, paixão, zelo, cuidado, carinho, salvação eterna, libertação, ressurreição, misericórdia, piedade, perdão, felicidade, alegria, harmonia, doação, pureza, humildade, resignação, compromisso com os outros... as pessoas dessas religiões ficam pobres, muito pobres, porque “seus” seguidores não se sentem ameaçados em vida por Deus. Veja os exemplos de um Chico Xavier, Madre Teresa, Gandhi, Francisco de Assis, e ainda muitos cientistas, artistas. Que jogo de interesses e intenções de muitas religiões e de seus comandantes! Inventou-se até o termo “Teologia da Prosperidade”.
A salvação ou a perdição serão sempre coletivas, porque ninguém se salva sozinho, ou ninguém se perde sozinho. Ou salvemo-nos ou percamo-nos – eis a questão!  Como é possível ser feliz no meio de tantas necessidades humanas?
Dom Helder Câmara – nosso grande guru – repetindo Gandhi, Madre Teresa, Dom Pedro Casaldaghia, Luther King, dizia que enquanto houver alguém passando fome e vivendo na miséria não dá para ser feliz. Pois é, a ameaça e o medo de uma condenação eterna criaram, na Idade Média, o instituto das indulgências – uma compra de um lugar no céu em suaves prestações.
O primeiro a questionar profundamente essa “compra” foi o grande Martinho Lutero – pregador excomungado pela Igreja Católica. O primeiro cisma – o primeiro grito de protesto – a primeira cisão dentro do cristianismo! E isso aconteceu a pouco mais de quinhentos anos. E nesses pouco mais de quinhentos anos foram criadas mais de mil e quinhentas (1.500) cisões, novas “religiões” cristãs, tendo como base a mesma Bíblia Sagrada – o que significa dizer que em cada ano foram criados três “cristianismos” diferentes. É muito cristianismo para um mesmo Cristo!
O que fizeram com Jesus? O que fizeram com Cristo? Aliás, Ele já havia dito que haveria muitos falsos profetas! Continuamos a matar, a crucificar o mesmo Cristo, em todos os lugares e em todos os tempos! Tudo isso é um jogo fantástico de intenções e interesses econômicos! Uns pregam que a salvação vem do amor, da solidariedade, da ajuda ao próximo, porque ninguém pode amar a Deus sem amar o próximo! Outros pregam que a salvação vem da fé – basta crer e louvar a Deus e o próximo que se dane! Uns, assim, falam de uma salvação coletiva e social; outros, de uma salvação individual e pessoal. Para alguns, o Evangelho de Mateus – o mais socializante, o mais poético, o mais bem escrito de todos – não existe! “Aquele que fala: Senhor! Senhor! não entra no reino dos céus!” – “Se tiver algum inimigo, ou alguma rusga com um irmão, deixa a tua oferta no altar, reconcilia-se com ele e volta!” – “Tive fome e não me deste alimento; estive preso e não me visitaste; sentia frio e não me deste agasalho!” – “Eu sou o outro!” – “Eu sou o próximo!”
O ser humano, em todos os tempos e lugares, julga-se senhor e dono de tudo, só porque entendeu que isso era obediência a Deus: “Crescei-vos, multiplicai-vos e dominai a terra.” – “Façamos o homem à imagem e semelhança de Deus” – “O homem é o rei da criação”.
Se o homem não tomar consciência de que é parte do Universo, de que está integrado, queira ou não queira, ao TODO, ou ao TUDO, que é Deus, de que é criatura, como todas as outras criaturas, fatalmente continuará destruindo florestas, rios, mares, animais, seres vivos e não-vivos, continuará explorando, espoliando, humilhando, usando, matando outros seres humanos, condenando-os à pobreza, fome e miséria. Fala-se, hoje, em um bilhão – um sexto da humanidade – de pobres, famintos e miseráveis.
Um sacerdote católico, franciscano e capuchinho, analisa e critica, no Brasil, as muitas igrejas cristãs, inclusive a Católica, dizendo: “Há tantos templos e igrejas em todas as cidades brasileiras que, se verdadeiramente fôssemos cristãos, não haveria nem uma (o número um mesmo) pessoa passando fome, sem casa e sem escolas e sem hospitais, sem saneamento básico e sem água encanada. É uma farsa dizer que somos o maior país cristão do mundo. Ser cristão é partilhar, é dividir. Quem ama, quem crê em Deus, quem frequenta igrejas, fica pobre, porque isso sim é preceito de Deus. Ficar rico é acumular, multiplicar rendas e lucros e bens. Amar é dividir, partilhar, doar, por isso rico não ama, nunca vai amar.”  


Questão   eleitoral

A história brasileira é verdadeiramente maravilhosa, com o melhor povo do mundo. Enquanto muitos países, até hoje, lutam, por exemplo, por eleições de seus representantes, desde 1532, no Brasil, já havia eleição. As formas de eleição iam sendo mudadas, claro, atendendo aos interesses e intenções de quem desejava deter o poder.
Na Vila de São Vicente, no litoral de São Paulo, primeira cidade organizada pelos portugueses, somente os homens livres (portugueses e descendentes de portugueses) votavam e elegiam entre eles algumas pessoas que depois elegiam representantes para o Conselho Municipal – uma espécie de Câmara de Vereadores. Outras cidades seguiram o mesmo sistema até o Império. Observe-se que eleição não significa democracia – oportunidades e chances iguais para todos.
Em 1821, o Brasil ainda não era independente de Portugal, mas era representado na Corte Portuguesa, lá em Lisboa, por alguns poucos brasileiros, eleitos aqui, sem nenhum vínculo partidário. Eram intelectuais e nobres.
Em 1823, o Brasil, já independente “politicamente” de Portugal, tendo D. Pedro I no poder quase absoluto, criou-se Assembleia Constituinte com Câmara de deputados federais e Senado, com dois partidos: Conservador e Liberal.
Em 1824 – um ano depois – o imperador dissolveu a Assembleia e outorgou a primeira Constituição Brasileira, que criou o Partido Moderador, partido do próprio imperador, colocando-o acima do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário. Nessa época, a Igreja Católica tinha vínculos muito estreitos com o Estado.
As eleições eram feitas nas paróquias. Cada paróquia que era constituída quando nas vilas e nas cidades havia 200 residências, elegia um representante da paróquia para depois eleger um deputado federal. Vale dizer que quem não fosse católico não poderia ser eleito. O eleitor e candidatos (só homens ricos) tinham de ter mais de 25 anos.
As eleições brasileiras sempre foram marcadas pelo poder econômico, sempre privilegiando o homem. Mulheres, índios, escravos, pobres, assalariados, quem não tinha bens... nem pensar. A urna era de madeira com três chaves. A urna só seria aberta para a contagem dos votos na presença de um juiz, de um escrivão e de um promotor que tinham cada um uma chave.
Antes da República, o Congresso, com a Lei Saraiva, passou a ter eleições diretas. Elegia-se e elege-se, até hoje, quem tem muito para gastar. Observe-se que eleição não significa democracia – oportunidades e chances iguais para todos.
Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, preparou-se uma nova Constituição – a segunda – que foi promulgada em 1891, com uma estrutura federativa, liberal, semelhante à dos Estados Unidos.
No dia seguinte da promulgação da Constituição, é oficialmente eleito pelo Congresso o já presidente Marechal Teodoro da Fonseca que foi obrigado a renunciar pela Revolta da Armada.
Durante a República Velha ou República da Espada, criaram-se muitos partidos políticos com uma pequena abrangência, já que não eram partidos nacionais, mas estaduais. Eleitores e candidatos, somente homens, deveriam ter mais de 21 anos. As urnas que eram de três fechaduras passaram a ter uma única fechadura “controlada” pelo Poder Judiciário.
É o período dos “Currais Eleitorais” dos coronéis, das oligarquias agrárias, com tropas particulares, para garantia da ordem. O interessante é que com a República o instituto do Coronelismo foi extinto, mas como quase tudo no Brasil, o “coronelismo” – associado à zona rural – existe até hoje no Brasil, apesar da urbanização do país. O título de “coronel” era concedido pela Guarda Imperial, sobretudo do Segundo Império. Hoje, eufemisticamente, fala-se em “reduto eleitoral” ou “as bases do partido”.
Até 1916, as eleições, sua preparação e apuração dos votos, estavam a cargo do Poder Executivo. Em 1930, foi criada a República Nova, com a famosa Revolução de 30.
Em 1932, foi criada a Justiça Eleitoral, para organizar as eleições, analisar e punir fraudes eleitorais, candidatos de ficha suja (A sujeira continua!). Nesse mesmo ano, criou-se a obrigatoriedade do voto secreto, voto dos homens e das mulheres, alfabetizados, acima de 21 anos; criação de partidos nacionais, usando urna sem fechadura, feita em sacolas de pano, mas em cabines “escondidas”.
Em 1934, a Terceira Constituição Brasileira, que amplia os poderes do governo federal, criando monopólios e empresas estatais. Getúlio Vargas é eleito presidente pelo voto indireto da Assembleia Nacional Constituinte, até 1938 – ano em que haveria eleições diretas para presidente.
Em 1937, o ditador Getúlio extingue a Justiça Eleitoral, acaba com os partidos, suspende as eleições em todos os níveis. Cria-se a figura do Interventor.
Em 1937, a quarta Constituição Brasileira, que fecha o Congresso, extingue novamente os partidos políticos, suspende as eleições.
Em 1945, fim da ditadura e novas exigências: os candidatos têm de ter vínculo partidário. Criaram-se 13 partidos políticos. Três partidos se destacavam: UDN – PSD – PTB e dez partidos manicos, do baixo ou pequeno clero, apoiadores de um dos três grandes, como acontece até hoje.
Em 1946, a quinta Constituição Brasileira, já no governo de Eurico Gaspar Dutra.
Em 1964, o Golpe Militar depõe João Goulart. São suspensas as eleições diretas para presidente, são criados apenas dois partidos: ARENA – Aliança Renovadora Nacional – e MDB – Movimento Democrático Brasileiro. Nesse período, havia a legenda e sublegendas, criando a maior confusão na cabeça dos eleitores, porque nem sempre o candidato vencedor nas urnas, era empossado. As sublegendas compunham a totalidade dos votos da legenda.
Só em 1979, já num processo de democratização do país é que se permitiu a criação de outros e vários partidos.
Em 1982, o povo já elegeu diretamente os seus governadores. A democracia será sempre um processo, uma conquista no dia a dia, que tem um início, mas nunca haverá um fim. Isso para dizer que sempre haverá algo mais a ser conquistado. Não basta votar! Não basta eleger!
Em 1967, a sexta Constituição Brasileira e a suspensão de direitos políticos de muitos cidadãos e de eleições. Muitas torturas e desaparecimentos de pessoas. Com o fim da ditadura, ampliou-se o pluripartidarismo, dando direito de voto aos analfabetos. Foram criados mais de trinta partidos.
Com o Movimento das Diretas-já, comandado por Tancredo Neves, em 1989, reconquistamos o direito de votar diretamente para presidente da República, já com o instituto de dois turnos para os cargos do executivo federal, estadual e municipal, nas cidades com mais de 200 mil eleitores.
Cria-se, em 1997, o instituto de reeleição para os cargos do poder executivo, já que para o legislativo a reeleição era uma situação normal e legalizada. Em 1988, é promulgada sétima Constituição Brasileira, conhecida com Constituição Cidadã. Em 1989, eleito o presidente Fernando Collor de Melo.
Em 2000, as eleições foram informatizadas, usando urnas eletrônicas. Não podemos reclamar muito da falta de eleições. O que não é admissível é entendermos democracia com eleições.
Não há eleições para os ocupantes do Poder Judiciário – o que é uma pena! Para o Poder Executivo, elegemos: 1 (um) presidente da República, 27 (vinte e sete) governadores, 5.564 (cinco mil e quinhentos e sessenta e quatro) prefeitos. Para o Poder Legislativo, elegemos: 513 (quinhentos e treze) deputados federais, 1.059 (um mil e cinquenta nove) deputados estaduais e os do Distrito Federal), 51.748 (cinquenta e um mil e setecentos e quarenta e oito) vereadores.
Nas últimas eleições, em 2010, 131.500.000 brasileiros, incluindo rapazes e moças acima de 16 anos, estavam aptos para votar – o que corresponde a 65% dos brasileiros. Há eleições a cada dois anos. O voto é um instrumento nos regimes representativos, apenas. Na realidade, cada cidadão delega poderes a outros; e, no Brasil, isso não é direito, mas uma obrigação. Não podemos reclamar de eleições, mas ainda podemos reclamar e exigir mais democracia, mais participação política e nas decisões das políticas públicas. .                      
Questão   gramatical

“Fazem duas semanas que não vou ao teatro” – “Hoje fazem quinze dias que tu me viste” – Fazem dois meses que nos vimos” – “Devem estar fazendo três meses que ele chegou” – “Fizeram ontem dois anos que ele morreu” – “Farão três meses que não nos vemos” – “Vão fazer cinco semanas que aconteceu um terrível acidente” – “Fazem calores infernais no Nordeste brasileiro” – essas frases não estão corretas, ou não estão dentro ou de acordo com a chamada língua-padrão. Há muitas maneiras de escrever e falar a mesma língua, dependendo da região, das influências étnicas, do ambiente, do nível de escolaridade e cultura das pessoas. Isso é assunto de outra reflexão, ou questão!
Nas expressões designativas de contagem de tempo, ou temperatura, o verbo fazer deve ser ou se comporta como um verbo impessoal – sem sujeito, exigindo o verbo no singular. Quando houver uma locução verbal, o verbo principal, no caso o verbo fazer, impessoaliza também o auxiliar, levando-o para o singular. Os principais verbais auxiliares são: ser – ter – haver – ter – ir – vir – dever – poder – ficar – acostumar – costumar – precisar... formando com o verbo principal uma só oração. Vale dizer que uma locução verbal, dependendo do caso, poderá ser transformada num único verbo, para facilitar a correção da frase. Assim: deve fazer meses que não vou a São Paulo = faz meses que não vou a São Paulo.
E como ficariam corretas as frases citadas? Assim: “Faz duas semanas que não vou ao teatro” – Hoje faz quinze dias que tu me viste” – “Faz dois meses que nos vimos” – Deve estar fazendo três meses que ele chegou” – “Fez ontem dois anos que ele morreu” – “Fará três meses que não nos vemos” – “Vai fazer cinco semanas que aconteceu um terrível acidente” – “Faz calores infernais no Nordeste brasileiro”


Questão   brasileira

A história dos brasileiros é feita de conquistas e vitórias, não relatadas e estudadas nas escolas nem ditas  para o povo, em geral. Nada para nós foi e é fácil. Temos de matar um leão a cada dia. Temos a fama de indolentes, preguiçosos, calmos, pacíficos, “deixa pra lá” – o que não é verdade. Lutamos muito, não conquistamos muito.
A título de exemplificação, no período colonial:
·  a Invasão dos franceses, no Rio de Janeiro, em 1555;
·  a luta contra o tráfico de escravos, iniciado em 1568;
·  a invasão dos holandeses, em Salvador, em 1624;
·  a segunda invasão dos holandeses, agora em Pernambuco, em 1640;
·  a Insurreição Pernambucana, em 1645;
·  a Revolta dos Beckman, no Maranhão, em 1684;
·  a destruição do Quilombo dos Palmares, em 1694;
·  a Guerra dos Emboabas, em Minas Gerais, em 1708-1709;
·  a Guerra dos Mascates, em Pernambuco, em 1710-1712;
·  a rebelião de Vila Rica, com Filipe dos Santos, em Minas Gerais, em 1720;
·  a revolta dos Sete Povos das Missões com a guerra Guaranítica, no Rio Grande do Sul, em 1754-1756;
·  a Inconfidência Mineira, em Vila Rica, em 1789-1792;
·  a Conjuração Baiana, ou Revolta dos Alfaiates, na Bahia, em 1798;
·  a Revolta Pernambucana, em 1817.
Os heróis brasileiros, derrotados nesses movimentos nacionalistas, foram e são esquecidos por nós, ou ainda, a história oficial nos nega essas informações importantes, mas são, queiramos ou não, os nossos verdadeiros heróis.
A título de exemplificação, vejamos as lutas e os desejos de muitos brasileiros, no império:
·  a Confederação do Equador, em Pernambuco, em 1824;
·  a Guerra Cisplatina, no Rio Grande do Sul, em 1825-1828;
·  a proibição do tráfico de escravos por pressão popular, em 1831, mas que não foi obedecida pelos cafeicultores paulistas;
·  a Revolução Farroupilha (Revolta dos Farrapos), em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em 1835-1845;
·  a revolta da Cabanagem, no Pará, em 1835-1840;
·  a revolta Sabinada, na Bahia, em 1837-1838;
·  a Revolta Balaiada, no Maranhão, 1838-1841;
·  a Revolta Praiana, em Pernambuco, em 1848-1850;
·  a proibição definitiva do tráfico de escravos com a Lei Eusébio de Queirós;
·  a Guerra do Paraguai, em 1864-1870;
·  o Manifesto Republicano, no Rio de Janeiro, em 1870;
·  a Lei do Ventre Livre, em 1871;
·  a Questão Religiosa, revolta do clero contra o imperador, em 1872-1875;
·  a criação dos jornais O Abolicionista e Revista Ilustrada, 1880;
·  a Questão Militar, em 1883-1885;
·  a Lei dos Sexagenários, em 1885;
·  a Lei Áurea, libertando os escravos, mas não prevendo a integração dos agora ex-escravos à sociedade, em 1888.
Da mesma maneira, os nossos brasileiros ilustres que participaram desses movimentos de luta e de conquistas sociais são esquecidos, porque ainda insistimos em apenas conhecer a história dos vencedores.
A título de exemplificação, na República:
·  a República da Espada ou a República Velha, em 1889-1930;
·  a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, em 1891, obrigando o presidente Teodoro da Fonseca a renunciar;
·  a Segunda Revolta da Armada, em 1893-1894;
·  a Revolta Federalista, no Sul, em 1893-1895;
·  a Revolta de Canudos, no sertão nordestino, em 1893-1897;
·  a Revolta da Vacina, encabeçada por Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, em 1904;
·  a Revolta da Chibata ou a Revolta dos Marinheiros, no Rio de Janeiro, em 1910;
·  a Revolta de Juazeiro, no Ceará, em 1910;
·  a Revolta do Contestado, em Santa Catarina e Paraná, em1912-1916;
·  as Revoltas Tenentistas, espalhadas por alguns estados, em 1922-1927;
·  a revolta dos Dezoito do Forte, no Rio de Janeiro, em 1922;
·  a Rebelião tenentista, em São Paulo, em 1924;
·  a Coluna Prestes, em 1924-1927;
·  a Revolução de 30 e o fim da República Velha, em 1930;
·  a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo;
·  a Intentona Comunista, em 1935;
·  a revolta de Lampião e Maria Bonita, em 1838;
·  a instituição do salário mínimo, em 1940;
·  a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha e Itália, em 1942;
·  a consolidação das Leis do Trabalho, em 1943;
·  a renúncia de Getúlio, em 1945;
·  o fechamento da CGT – Conferência Geral dos Trabalhadores – em 1947;
·  a greve geral exigindo reajuste de salários, em São Paulo, por 24 dias, mobilizando não menos de 300 mil trabalhadores, em 1953;
·  o atentado da Rua Tonefero, em 1954;
·  o Golpe Militar e o Regime Militar, com a decretação dos Atos Institucionais, cassando e perseguindo muitos brasileiros, impondo a censura aos meios de comunicação, restringindo os poderes do Judiciário, institucionalizando a ditadura, em 1964;
·  a passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro, em 1968;
·  o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, em 1969;
·  as lutas aramadas de resistência no Araguaia, no Vale do Ribeira, no nordeste, em 1969;
·  o sequestro do cônsul japonês, do embaixador da Alemanha Ocidental, do embaixador suíço, em São Paulo, em 1970;
·  o desaparecimento, já na prisão, do deputado Rubens Paiva, no Rio de Janeiro, em 1971;
·  o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-Codi (ironicamente com o nome doi!), em São Paulo, em 1975; 
·  a invasão da Pontifícia Universidade Católica – PUC-São Paulo, para impedir a reorganização da UNE – União Nacional dos Estudantes, em 1977;
·  as lutas de reorganizar os sindicatos e do MST – Movimento dos Sem-Terra, em 1979,
·  o atentado do Riocentro, em 1981;
·  as manifestações a favor das eleições diretas, sob o lema Diretas-Já, em 1984;
·  o impeachment do presidente Collor, em 1992;
·  as denúncias de abuso de poder no senado, em 2001.
Todos esses fatos históricos, lutas e conquistas, resistências e mortes, tiveram participação de muitos brasileiros, esquecidos pela história oficial, para que o povo brasileiro se sinta um povo de paz, pacífico, acomodado, preguiçoso, indolente, que aceita tudo goela abaixo, sem nenhuma crítica e contestação. É hora de pensarmos nos nossos verdadeiros heróis e libertadores.


Questão   vernácula

A formação de palavras é um estudo verdadeiramente fascinante. Na realidade, não há nenhum idioma puro. As pessoas vão criando palavras dependendo de sua necessidade, sem muita explicação. “A necessidade faz o sapo pular” – diziam os antigos. Conhecendo radicais gregos, latinos, celtas, ingleses, japoneses ou de qualquer língua, misturamos radicais e formamos novas palavras.
Com o avanço das ciências, novas palavras têm de ser criadas. Uma ferramenta nova, um produto novo, como as pessoas quando nascem são registradas e/ou batizadas, novos nomes vão sendo registrados e dicionarizados, sem nenhum critério, praticamente.
Hoje, vamos “brincar” com dois radicais: FILIA e FOBIA – com o auxílio do Dicionário Aurélio. Vamos citar as palavras referentes somente ao ser humano, especialmente vocábulos ligados à medicina e, em especial, à psiquiatria,
As palavras FOBIA e FILIA são antônimas. Vejamos alguns exemplos, primeiramente com o radical FOBIA = designação comum às diversas espécies de medo mórbido, horror instintivo a alguma coisa; aversão irreprimível; medo intenso, ou irracional; medo mórbido; aversão instintiva; hostilidade instintiva:
·  abissofobia = horror a abismos e a precipícios;
·  acarofobia = receio patológico de ácaros;
·  acrofobia = medo mórbido de altura, de lugares elevados;
·  acusticofobia = medo patológico de sons;
·  aerodromofobia = medo patológico de viagem aérea;
·  aerofobia = medo mórbido do ar, de correntes de ar;
·  agorafobia = medo mórbido e angustiante de lugares públicos e grandes espaços descobertos;
·  ailurofobia = medo patológico de gato;
·  algofobia = terror mórbido de sensação dolorosa;
·  amaxofobia = sensação de medo em presença de veículos;
·  amicofobia = receio mórbido de ser arranhado, como, por exemplo, por garra de animal;
·  androfobia = horror ao sexo masculino;
·  anemofobia = medo patológico de vento;
·  antofobia = aversão patológica a flores;
·  apifobia = medo patológico de abelhas e de seus ferrões;
·  aracnofobia = medo mórbido de aranha;
·  astrofobia = medo mórbido de trovões e relâmpagos; medo de astros, do espaço celeste;
·  ataxofobia = medo patológico de desordem;
·  autofobia = medo patológico de si mesmo e de solidão;
·   automisofobia = horror patológico à sujeira pessoal;
·  bacilofobia = medo patológico de germes patogênicos;
·  basifobia = medo mórbido de cair, ao andar;
·  basiofobia, basofobia; batmofobia = medo patológico de escadas ou de ladeiras altas;
·  batofobia = horror a lugares profundos, ou como que profundos, medo patológico de passar perto de, ou entre estruturas altas, como edifícios, montanhas;
·  batracofobia = medo mórbido de batráquios;
·  bibliofobia = aversão aos livros;
·  biofobia = horror mórbido à vida;
·  bromidrosefobia = medo patológico de odores corporais, com percepções ilusórias quanto a eles;
·  brontofobia = medo mórbido de trovão;
·  cardiopatofobia = medo patológico de cardiopatia;
·  capoptrofobia = aversão patológica a espelhos;
·  cenofobia - cenatofobia = medo patológico de grandes espaços abertos, medo patológico de coisas novas;
·  cinofobia = medo mórbido dos cães;
·  cipridofobia – venereofobia = medo patológico de doença venérea, medo patológico de relação sexual;
·  claustrofobia = estado psicopatológico caracterizado pelo medo de estar ou passar em lugares fechados ou de tamanho reduzido;
·  cleptofobia = medo mórbido de ser roubado, ou de cometer furto, ou de estar em débito;
·  climacofobia = medo patológico de escadas ou de galgá-las;
·  coitofobia = medo patológico de coito;
·  coprofobia = repugnância patológica à defecação e às fezes;
·  coprostasofobia = medo patológico de sofrer de constipação;
·  crematofobia = aversão patológica a dinheiro;
·  cremnofobia = medo patológico de precipícios;
·  cromatofobia = medo patológico de cores;
·  cronofobia = medo patológico do tempo, ou do envelhecimento;
·  demofobia = temor patológico a multidão;
·  dendrofobia = horror às árvores;
·  dismorfofobia = medo patológico de deformidade corporal, presente ou futura;
·  domatofobia = medo patológico de estar dentro de uma casa;
·  dorafobia = medo patológico de pele ou pêlo de animal;
·  elurofobia = medo patológico de gato;
·  emetofobia = horror ao vômito;
·  enofobia = horror ou aversão ao vinho;
·  eremofobia = medo patológico à solidão;
·  ereutofobia = medo de enrubescer na presença de outrem;
·  ergasiofobia = aversão patológica a trabalho, medo indevido de sofrer intervenção cirúrgica;
·  ergofobia = horror ao trabalho;
·  eritrofobia = manifestação neurótica caracterizada por enrubescimento ao menor estímulo, medo patológico de enrubescer, aversão patológica à cor vermelha;
·  erotofoabia = horror ao ato sexual;
·  escopofobia = receio mórbido de ser visto;
·  estasiofobia = medo mórbido de se pôr de pé;
·  fagofobia = medo patológico de alimentar-se;
·  filofobia = medo patológico de fazer amigos;
·  fobofobia = medo de seus próprios medos;
·  fonofobia = aversão patológica a sons, e à fala em tom alto;
·  fotofobia = aversão à luz, resultante, geralmente de dor ou de desconforto provocado por ela;
·  ftiriofobia = aversão patológica a piolhos;
·  gamofobia = medo patológico de casamento;
·  gefirofobia = medo patológico de andar em ponte, margem de rio, ou outro local perto de água;
·  gimnofobia – ginofobia = aversão ao, ou medo do nu;
·  ginecofobia – ginofobia = aversão patológica a convívio com mulheres;
·  grafofobia = medo patológico de escrever;
·  hafefobia = receio patológico de tocar ou de ser tocado;
·  heliofobia = medo patológico da luz solar;
·  helmintofobia = medo patológico de ser infectado por helminto, por verme;
·  hematofobia = horror ao sangue;
·  herpetofobia = medo patológico de reptis;
·  hialofobia = medo patológico de vidro;
·  hidrofobia = horror aos líquidos;
·  hidrofobofobia = medo mórbido de contrair raiva;
·  higrofobia = horror à umidade, que não se adapta a ela;
·  hipnofobia = medo de dormir, terror ou medo durante o sono;
·   hipsofobia = medo mórbido das alturas;
·  hodofobia = aversão patológica a percorrer caminhos;
·  homofobia = aversão a homossexuais ou ao homossexualismo;
·   ictiofobia = aversão patológica a peixes;
·  ideofobia = medo mórbido de perder a razão, medo ou desconfiança de idéias;
·  iofobia = medo patológico de venenos;
·  lalofobia – logofobia = medo mórbido de falar, decorrente, por vezes, de gagueira;
·  lemofobia = horror à peste, ou a qualquer doença altamente contagiosa;
·  levofobia = medo mórbido de tudo que se situa do lado esquerdo daquele que sofre de tal fobia;
·  lissofobia = medo mórbido de contrair raiva;
·  livrofobia = horror aos livros;
·  maieusofobia = medo mórbido do parto;
·  melofobia – musicofobia = aversão à música;
·  militofobia = aversão à vida ou ao estado militar, ou aos militares;
·  misofobia = temor doentio dos contatos, pelo receio de infecção ou contaminação;
·  mitofobia = aversão à mentira, ou aos mentirosos;
·  monofobia = horror mórbido à solidão;
·  necrofobia = horror mórbido à morte;
·  neofobia = aversão às coisas novas;
·  nictofobia = medo doentio da noite, da escuridão;
·  nosofobia – patofobia = medo de adoecer, que pode levar alguém a tratar-se de doenças de que não sofre;
·  nudofobia = aversão ou sensação mórbida que se experimenta por ficar nu;
·  oclofobia = horror ou aversão à plebe, à multidão;
·  odinofobia = medo patológico de dor;
·  ofidiofobia = medo mórbido de ofídios;
·  ombrofobia = Medo mórbido de chuvas, temporais e tempestades;
·  orofobia = horror mórbido às montanhas;
·  pacnofobia – quilonofobia = medo patológico de neve;
·  panfobia – panofobia –pantofobia = estado de ansiedade que induz o indivíduo a ter medo de tudo;
·  parasitofobia = medo patológico de parasito, ou de contrair moléstias parasitárias;
·  paternofobia = medo mórbido de mulher virgem;
·  pecatifobia – pecatofobia = medo patológico de pecar;
·  pedofobia = aversão às crianças;
·  pirofobia = horror doentio ao fogo;
·  pnigofobia = medo mórbido de morrer por asfixia;
·  polifobia = medo patológico de múltiplas coisas;
·  ponofobia = medo patológico de trabalho; indolência mórbida;
·  potamofobia = medo patológico de rio, de correntes de água;
·  proctofobia = estado de apreensão manifestado em doente com doença anal e/ou retal;
·  pseudofobia = medo mórbido de algo que não causa dor nem molesta, mas apenas desgosta;
·  psicrofobia = medo mórbido de frio;
·  querofobia = desgosto ou medo patológico de alegria, de jovialidade;
·  sifilofobia = medo patológico de ter sífilis, ilusão de estar com sífilis;
·  sitiofobia – sitofobia = medo patológico de alimentar-se;
·  sociofobia = aversão ao que seja relativo ao social;
·  tafofobia = medo doentio de ser sepultado vivo;
·  talassofobia = medo patológico de mar;
·  tanatofobia = medo injustificado de morte iminente, medo patológico da morte;
·  tassofobia = medo patológico de estar sentado ociosamente;
·  taurofobia = medo patológico de touros;
·  teofobia = temor patológico a Deus ou deuses;
·  teratofobia = aversão patológica a monstro, medo patológico de dar à luz um monstro;
·  termofobia = aversão patológica a temperatura elevada;
·  tocofobia = medo patológico de parir;
·  tonitrofobia = medo patológico de trovão;
·  topofobia = medo mórbido de determinados lugares;
·  toxicofobia = medo patológico de veneno;
·  uiofobia = mania que consiste na aversão aos próprios filhos;
·  xenofobia = aversão a pessoas e coisas estrangeiras;
·  zoofobia = medo mórbido a qualquer animal.
Como fobia e filia são antônimos, poderíamos simplesmente ir trocando os radicais. Agora, vamos, com a ajuda do Dicionário Aurélio, fazer o levantamento de palavras, referentes aos seres humanos, com o radical FILIA = amizade; afinidade; amor, afeição, atração; atração ou afinidade patológica por; tendência patológica:
·  agorafilia = tendência mórbida a ser atraído por espaços amplos e abertos;
·  ailurofilia – elurofilia = afeição patológica por gatos;
·  aleofilia = atração pelo sexo oposto;
·  algofilia = perversão sexual caracterizada por desejo de sentir dor;
·  algomania; antofilia = entusiasmo exagerado por flores;
·  autofilia = auto-estima que, por sua grande intensidade, é patológica;
·  bibliofilia = amor aos livros, arte de colecionar livros tendo em vista circunstâncias especiais ligadas à publicação deles;
·  biofilia = instinto de conservação; amor à vida;
·  cenofilia = atração por lugares amplos e desérticos;
·  cinofilia = afinidade patológica por cães;
·  claustrofilia = tendência patológica a ficar encerrado em um cômodo, com janelas e portas fechadas;
·  columbofilia = amor aos pombos; interesse por eles, a arte da criação de pombos-correios;
·  coprofilia = atração patológica por sujeira, especialmente por fezes e pelo ato de defecação;
·  corofilia = propensão a dirigir o interesse sexual a jovem do sexo oposto;
·  cromatofilia – cromofilia =  atração ou preferência por cores, esp. as fortes, intensas;
·  demofilia = amor ou simpatia ao povo;
·  dendrofilia = amor às árvores;
·  enofilia = apreço ao vinho, tendência a ingestão habitual de vinho;
·  escatofilia = perversão que se caracteriza por gosto por imundície;
·  escopofilia = prazer sexual em olhar órgãos genitais –  escopofilia ativa, desejo patológico de ser visto – escopofilia passiva;
·   gerontofilia – presbiterofilia = sentimento ou tendência de quem é gerontófilo; cronoinversão;
·  iconofilia = arte de colecionar imagens, principalmente estampas;
·  ligofilia = anseio anormal por lugares escuros, sombrios;
·  melofilia – musicofilia = predileção à música, ou propensão para ela, prazer ao escutar música;
·  menofilia = atração sexual por mulheres menstruadas; menomania;
·  misofilia = atração anormal pela sujeira;
·  monumentofilia = atração de caráter sexual por monumentos;
·  necrofilia = atração sexual mórbida por cadáver;
·  neoterofilia = atração sexual por pessoas mais jovens;
·  nosofilia = desejo patológico de estar doente;
·  oclofilia = gosto ou atração por multidão, por turbas;
·  ombrofilia = grande apreço, ou atração por chuvas, temporais e tempestades;
·  ornitofilia = .grande dedicação à ornitologia, ou aos pássaros;
·  orofilia = amor às montanhas, e/ou ao alpinismo;
·  padrofilia = apego exagerado a sacerdotes;
·  parafilia = cada um de um grupo de distúrbios psicossexuais em que o indivíduo sente necessidade imediata, repetida e imperiosa de ter atividades sexuais, em que se incluem, por vezes, fantasias com objeto não humano, auto-sofrimento ou auto-humilhação, ou sofrimento ou humilhação, consentidos ou não, de parceiro;
·  partenofilia = inclinação exagerada por mulher virgem;
·  passiofilia = sadomasoquismo; 
·  pedofilia = Parafilia representada por desejo forte e repetido de práticas sexuais e de fantasias sexuais com crianças pré-púberes;
·  pedonecrofilia = forma de necrofilia em que a relação sexual desejada é com cadáver de criança;
·  psicrofilia = predileção pelo frio;
·  riparofilia = atração por aquilo que, aos outros, causa nojo;
·  saprofilia = atração por coisas podres;
·  sociofilia = gosto pelo que seja relativo ao social;
·  talassofilia = gosto exagerado por mar;
·  tanatofilia = atração pela morte, ou por assuntos letais;
·  taurofilia = paixão por touradas, pela tauromaquia;
·  termofilia = preferência por ambientes quentes, benefício oriundo da ação de temperaturas altas;
·  traumatofilia = distúrbio mental em que há prazer subconsciente em sofrer traumatismo, incluindo qualquer traumatismo cirúrgico;
·  zoofilia = situação em que o carinho por outro animal que não o homem produz prazer sexual.


Questão   filosófica


A cooperação é o desafio mais profundo, mais escondido do ser humano. No fundo, todos e cada um de nós se sente muito maior do que tudo que o cerca, quando buscamos a cooperação e a solidariedade, apesar de estarmos mergulhados, e não poderia ser diferente, no tempo e na história, no espaço e na geografia.
Nesse sentido, os sonhos e as utopias ultrapassam as necessidades simplesmente naturais. Nada detém o ser humano! Nada prende o ser humano! Nada também é definitivo e por isso tudo e pode ser modificado, construído e reconstruído. Uma música bem popular brasileira, do conjunto Skank, escrita por Samuel, nos diz assim: “É um desperdício eu olhar para dentro de mim”.
Se analisarmos o que não foi dito, obviamente podemos dizer que só vale a pena “eu olhar para fora de mim”. ao olhar para fora, vê-se o outro e muitos outros. Aí, o encontro de construção de via de mão dupla: “Eu me encontro no outro e o outro se encontra em mim”. Ou ainda pode-se entender, como Martin Buber, o filósofo da alteridade, “eu-tu é uma unidade, por isso indivisível, inseparável, indestrutível, experimental, existencial.” Para ele, só existe o sujeito: eu-tu e o objeto: ele, a coisa, a matéria, a realidade, a história. Ou ainda pode-se entender o homem como ser naturalmente relacional, segundo a lenda dos porcos-espinhos: “Somos porcos-espinhos vivendo numa caverna mortalmente fria. Para nos aquecer, mantermo-nos vivos, encostamo-nos uns nos outros, quase que sugando o calor do corpo dos outros. Nossos espinhos machucam os outros e os espinhos dos outros nos machucam. Aí, separamo-nos, recolhemo-nos em nós mesmos nos momentos de reflexão e de até solidão. Mas, o frio é mortal! Buscamos novamente o calor dos outros e assim vamos vivendo”. Em outras palavras, o sentido da vida do homem reside justamente na dinâmica de sair de si em busca do outro e voltar para si mesmo, enquanto vida houver.
Essa metáfora existencial e fantástica nos mostra que mesmo, às vezes, nos machucando, nos esvaziando na e com a presença do outro, segundo Sartre (“O inferno são os outros!”), é o outro que nos aquece e nos mantém vivos. Segundo Heidgger, menos pessimista que Sartre e Schopenhauer, autor da lenda adaptada acima, “o céu são os outros”.
O outro, mais do que limite do outro homem, segundo Scaff, mais do lobo do outro homem, segundo Hobbes, mais do que inferno, segundo Sartre, mais do que porco-espinho, segundo Schopenhauer, é a possibilidade de existir, de ser-mais, de ser-melhor. É a possibilidade de se dar o salto significativo da vida, como maior e único bem.
Estamos enraizados em terrenos preparados e adubados pelo individualismo – “Cada um por si e Deus por todos” – pelo consumismo – “Somos o que temos e vale mais quem tem mais” – pela solidão – “Antes só do que mal acompanhado” – pelo materialismo – “Lei de Gerson e lei de Zeca Pagodinho: quanto levo nisso, sem dinheiro não se vive, por três milhões faço qualquer negócio” – pelo racionalismo – “Penso. logo existo”, “O homem é animal racional” – pelo egoísmo – “Em primeiro lugar eu, em segundo lugar, eu, em terceiro lugar, eu” – pelo dualismo limitador – “céu/inferno, bem/mal, guerra/paz”...
Quantas algemas, quantas grades, quantas prisões, quantas amarras! A verdade é que tudo isso está em nós enraizado, internalizado como um vírus. Faz de nós seres sempre em busca do sucesso, da fama, do lucro, do consumo, da riqueza, do poder a qualquer preço, sem qualquer análise e reflexão.
Por opção, é possível a loucura, a paixão, o amor, a anarquia, a harmonia, a colaboração, a cooperação... Anarquia, aqui, tem a dimensão antropológica de ações verdadeiramente humanas e humanamente verdadeiras de libertação – utopia dos homens de boa-vontade. “O que eu posso fazer pelo outro, além da passividade mórbida, à espera do que o outro, o governo... possam fazer por mim”.



Questão   franciscana


  São Francisco de Assis (1181-1226) é venerado em todo o mundo como uma das figuras das quais mais nos orgulhamos. Na sua biografia se tornaram visíveis e possíveis sonhos carregados ao longo de toda a vida e acalentados no fundo de nosso coração: uma relação amorosa e terna com Deus, Pai e Mãe de infinita bondade, um amor simples a todas as coisas, vivenciadas como irmãos e irmãs; uma discreta reconciliação entre os impulsos do coração e as exigências do pensamento; uma calorosa recepção dos distantes e distintos, feitos próximos, e dos próximos feitos irmãos; uma aceitação jovial daquilo que não podemos mudar; uma inocente liberdade em face das ordens e regras estabelecidas; uma alegria acolhida da morte como amiga da vida.
Do livro: A Oração de São Francisco – uma mensagem de paz para o mundo atual, de Leonardo Boff, publicado pela Editora Sextante, Rio de Janeiro.
 
                                   

Nenhum comentário:

Postar um comentário